domingo, 25 de setembro de 2011

Capítulo IX


Minha cabeça ia explodir se algo pior acontecesse. Mandei uma mensagem para o Adam, avisando que demoraria para sair. Eu só precisava de alguns minutos sozinha, e a caminhada para casa era a minha única chance. Enrolei no vestiário o máximo que pude, e percorri os corredores vazios do colégio sem a mínima pressa. Alguém estava martelando meu crânio? Eu realmente devia carregar algumas aspirinas na bolsa.
Martha ficaria louca se eu não aparecesse para lanchar, eu sabia disso, mas todos precisam de um descanso para a mente. Não sei por que raios eu precisava disso exatamente hoje, ou porque este havia sido um dia tão terrível, mas algo estava realmente errado comigo.
Perambulei por aquelas ruas movimentadas, passando por muitas pessoas que tinham rumo, mas não aparentavam ter um objetivo. Elas tinham pressa, corriam contra o tempo, atropelavam tudo em seu caminho, mas para quê? O que somos nós, senão metas ainda não alcançadas? Podíamos viver bem sem ter ao menos realizado um grande sonho?
Quando finalmente dei por mim, estava neste parque. Olhei para trás e, como nunca antes, dei-me conta de que aqueles prédios altos escondiam um pedacinho do paraíso. Os raios de sol refletidos na água, o cheirinho doce das flores, as folhas balançadas por aquela leve brisa. Não era a primeira vez que eu passava por aqui, mas este parecia um novo lugar. Eu sentia como se estivesse me renovando e, ao contrário de minutos atrás, permiti que a angústia armazenada em mim também pudesse desfrutar de toda esta beleza.
As lágrimas foram percorrendo o meu rosto, mas não eram carregadas de tristeza. Alívio, talvez essa seja a definição certa, como se um peso saísse dos meus ombros. Apoiei minhas costas no tronco da árvore mais próxima e lentamente fui me aproximando do chão. Minha visão embaçada continuava presa nos reflexos solares e, não mais do que de repente, aquela imagem tomou conta de mim. Um flash, apenas um segundo. E aquele arrepio novamente. Era um casal? Fechei meus olhos tentando rever aquela cena. Definitivamente era um casal, e me era familiar. O lugar não, era sombrio, e eu não lembrava de jamais ter estado lá.
O sol finalmente se pôs e com isso percebi que estava na hora de voltar para a realidade. Peguei minha mochila e, com dificuldade, levantei do chão me apoiando na árvore. As ruas não estavam mais tão cheias. Àquela hora, as pessoas já deviam ter chego a seu destino e, por mais que eu relutasse a cada passo, era a minha vez de fazer o mesmo.
As luzes do jardim já estavam acesas e previ que teria uma governanta furiosa me esperando no hall de entrada. Não deu outra.
– Aonde você estava, mocinha? Quer que eu tenha um ataque cardíaco antes da hora? – Braços cruzados, pé balançando impacientemente e uma cara nada amigável.
– Estava por ai, agora estou por aqui. – Procurei sorrir, tentando acalmar a fera.
– E da próxima vez que você sair sem me avisar terão partes suas por toda essa cidade. Fique avisada. – E subiu as escadas, ainda furiosa.
Passei na cozinha para pegar algo para comer, e logo subi para o meu quarto, pois um banho quente era a única coisa que faltava para concluir esse dia tumultuado.
Adormeci rapidamente nessa noite, porém meus sonhos não foram mais calmos do que quando eu estava acordada. Começou com aquela ‘visão’ que tive no parque, porém eu não era apenas uma observadora, eu era aquela menina. E agora compreendi o que era aquele lugar: a entrada para uma floresta. Os galhos das árvores balançavam de um jeito sinistro, como se fossem me arrastar para dentro daquela mata. Eu tremi, pensando nessa possibilidade. O menino ao meu lado também estava tenso, olhando ao nosso redor, e me pergunto quem ou o que ele temia.
Quando ele tentou me puxar para o meio daquelas árvores, eu corri. Corri o máximo que pude na direção oposta. Avistei um casarão pouco iluminado e, por mais que não parecesse o melhor lugar para se viver, aparentemente era o local mais seguro por ali. O portão estava semi-aberto, então entrei em disparada. Bati algumas vezes na porta de entrada que com um rangido se abriu. Estava tudo tão escuro, meu coração estava tão acelerado e minha respiração ofegante. Tateei a parede em busca de um interruptor. A baixa iluminação me permitiu reconhecer aquele lugar. E por mais estranho que pareça, eu estava no colégio.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Capítulo VIII


Quer saber algo mais estranho do que fazer algo diferente? Todos notarem que você está fazendo algo diferente. Quando entrei no refeitório acompanhada do Derick, muitos se calaram, mas não foi como se formassem aquele silêncio repentino e constrangedor, porém alguns até mesmo viraram para nos olhar. Entre eles, Adam. Sua mesa inteira silenciou, e os que não olhavam para mim olhavam para ele, na expectativa se sua reação.
Derick não notou o clima estranho que percorreu o refeitório, ou fingiu muito bem. Continuou contando como estava sendo diferente estudar em um colégio normal, pois acabara de ser transferido de um colégio interno só para meninos. Passara um ano lá, como castigo por ter desrespeitado as ordens de seu pai. Que tipo de pai normal fazia isso?
Tentei passar o mais longe possível da mesa do meu irmão, pois o olhar penetrante dele já estava me incomodando o suficiente. Fomos então nos servir e sentar em uma mesa do outro lado do refeitório, perto das janelas. Ficou quente de repente.
–... Mas não foi ruim. Meu pai estava me deixando louco de qualquer forma. – Ele tomou um gole de suco, e fixou o olhar em mim. – Chega de falar de mim. Conte-me mais sobre você.
– Sobre mim? – Eu mal tinha comido duas garfadas, mas meu estômago já estava embrulhado, e sentia que poderia vomitar a qualquer momento. – Sei lá, o que gostaria de saber?
– Tudo, seria pedir muito? – Ele deu uma risada sem graça, e se mexeu no banco, momentaneamente parecendo desconfortável também. – Faz parte do grupo das líderes de torcida daqui?
Não consegui segurar o riso. – Líder, eu? Bem longe disso. Por que a pergunta?
– Quando entramos aqui, elas pareciam esperar que você se sentasse com elas ou algo assim. – Ele deu de ombros, como se fosse uma resposta óbvia.
– Achei que você não tinha notado. De qualquer forma, não sei como poderei te explicar... – Pensei por uns segundos, enquanto empurrava a comida para a beirada do prato. – Digamos que as líderes basicamente me odeiam. – Apoiei os cotovelos na mesa, olhando discretamente na direção do meu irmão, para ver se ele ainda nos encarava. – Todos naquela mesa estavam nos olhando porque meu irmão estava lá, e talvez esperassem que ele se manifestasse ou algo assim, coisa que obviamente ele não faria. Não se daria ao trabalho de se importar já que somos basicamente dois estranhos.
Derick olhou por sobre o ombro para a mesma direção que eu. A patotinha estava toda animada, porém notei que Adam dava umas olhadas discretas para trás. – Acho que já sei quem é seu irmão. – Disse, me olhando com um sorriso. – Vocês têm o mesmo cabelo.
– É o que dizem por ai. Mas talvez seja a única semelhança, tirando os olhos. – Comecei a me levantar, puxando a bandeja.
– Você não comeu nada. Vai ficar fraca se não se...
– Estou bem. Vamos?
Estava louca para sair dali e me afastar de todos aqueles olhares curiosos. Fomos dar uma caminhada pelo gramado do colégio, até que chegamos ao estádio, onde ocorriam a maioria dos jogos dos campeonatos inter escolares. Olhei angustiada para o campo, lembrando do meu irmão. – Não devo explicações a ele, sobre nada que faço da minha vida. – Pensei. Afinal, não era como se eu estivesse dormindo com o cara. Nem éramos amigos.
– Você tem irmãos? – Nem olhei para o Derick, mas era óbvio que a pergunta foi direcionada a ele. Demorou tanto tempo para me responder, que até achei que não tinha me ouvido.
– Tenho um irmão mais velho. Só que não nos falamos.
– Já é casado?
– Não, ele deve ser apenas um ou dois anos mais velho que o seu irmão.
– Hum, e por que ele não mantém contato?
– Digamos que ele nunca aceitou muito o jeito do meu pai. Vivíamos brigando, então ele achou melhor ir embora... – Fez uma pausa quando se abaixou para pegar uma pedra no chão. – Mas continua na cidade, eu acho. Faz algum tempo que não nos esbarramos por ai. – Ele curvou o braço para trás e tacou a pedra. Ela foi tão alta e tocou o chão tão longe que não consegui mais vê-la. Creio que tenha ultrapassado pelo menos uns três metros para fora do campo.
– Wow, essa foi longe. Você joga futebol ou algo do gênero? – Ainda estava com os olhos arregalados, incrédula que ele tivesse tanta força sendo tão magricelo, visto que a pedra não era pequena. Acho que mal caberia na minha mão.
– Jogava beisebol, futebol americano, basquete, fazia natação... Coisas assim, para passar o tempo. – Disse ele, dando de ombros, como se não fosse nada.
– Para passar o tempo? E por que ficou magrinho desse jeito? – Disse eu, sem conter a risada.
– Posso ser magro, mas garanto que sou mais rápido que você. – Ele apressou o passo e começou a andar de costas para poder me olhar.
– E eu disse que era rápida? Faço parte do clube de leitura, do jornal, do grupo de ciências e matemática, tudo aqui na escola. Gosto de participar de manifestações e passeatas contra o abate de animais marinhos, e vários animais em extinção. – Não pude evitar sorrir. – Coisa que certamente irrita meus pais, já que ter uma filha envolvida em manifestações públicas pode gerar alguns problemas para o visual da empresa. Também faço natação e estou tentando aprender francês na internet. Então sim, em 90% do tempo eu estou sentada, sem mover muitas partes do meu corpo.
Ele estava com as sobrancelhas arqueadas, quando terminei de falar. Pelo jeito ele ainda não tinha percebido o fato de eu ser considerada uma das garotas mais estranhas do colégio. Minhas chances de parecer normal para o novato foram reduzidas à zero. Ele olhou para o relógio e para onde tínhamos parado. Atravessamos o campo todo, enquanto conversávamos.
– Vamos ver o quanto você pode correr, Srta. Sedentária. – Esboçou um sorriso no canto dos lábios enquanto preparava a posição de corrida. – Temos que chegar na sala rápido mesmo. – Preparei-me ao seu lado, pensando que seria inútil, ele iria ganhar. – 3...2...1...
Começamos a correr, e obviamente ele estava na minha frente. Por mais rápida que eu fosse, não conseguiria ganhar. Senti uma leve brisa em meu rosto, e um cheiro delicioso me alcançou. Comecei a me sentir mais leve, quase voando, e não sei como consegui apressar ainda mais o passo. Alcancei a linha branca do limite do campo apenas uns segundos antes dele. Minha respiração estava ofegante e pesada, enquanto ele era quase como se não tivesse caminhado um passo. Semicerrei os olhos, balançando a cabeça negativamente.
– Não acredito que você me deixou ganhar. Sei ser uma boa perdedora, ok? – Estava com as mãos apoiadas nos joelhos, a respiração se normalizando.
– Eu não te deixei ganhar. Eu realmente dei o máximo de mim. – Ele me olhava de um jeito estranho, como se eu tivesse feito algo anormal.
– Sério mesmo, diga a verdade. Seria impossível eu ter ganhado se você não tivesse diminuído sua velocidade.
– Acredite no que quiser, mas eu juro que não te deixei ganhar. – Ao longe, o sinal soou, anunciando o início da próxima aula. Por sorte, era Ed. Física, então não teríamos que pegar material nenhum no armário.
Quando sai do vestiário após trocar de uniforme, encontrei Derick encostado na parede me esperando. Algumas líderes passaram fazendo comentários desagradáveis, e pude captar um Ele é muita areia para o seu caminhãozinho. Ele soltou uma risada baixa quando eu apenas revirei os olhos e sussurrei Me desculpe por isso. Rick esticou sua mão para que eu a apertasse e, meio receosa, estiquei a minha e toquei-o preparada para o costumeiro arrepio que percorria meu corpo. Não sei se iria me acostumar com isso tão cedo. 
Foi uma corrida limpa, e você mereceu ganhar. Parabéns, Srta. Walker. – Ele fez menção de que iria se curvar, mas antes que o fizesse, o puxei para a quadra rindo. Quando chegado, o professor Collins anunciava que a Sra. Baker estava com problemas de saúde e não pode comparecer à aula, então dividiríamos o tempo. As equipes foram divididas e posicionadas na quadra. O apito soou e a bola foi para o ar. Segundos depois, a equipe adversária marcava seus dois primeiros pontos. 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Capítulo VII

A informação dada por Julie deixou-me inquieta. Algo realmente ruim estava prestes a acontecer, e aquele comum desconforto do tipo “algo está muito errado aqui, mas eu não poderei fazer nada para mudar” estava me deixando louca. O tempo não passava, e a aula tediosa não colaborava com nada.
Decorridos uns dez minutos da segunda aula, alguém bateu na porta. Meu estômago embrulhou automaticamente e pequenos cabelos se eriçaram na minha nuca. De uma forma estranha eu sabia quem estava do lado de fora e era isso que eu temia.
A assistente da diretora Madison abriu a porta e deu espaço para que ele entrasse. Com aquele mesmo sorriso tímido de quando nos esbarramos no corredor, caminhou até a mesa do Sr. Peterson e entregou um papel da diretoria. Notei risadinhas e cochichos vindos do canto onde Tiffany estava sentada com Tracy, então provavelmente ele seria o próximo alvo delas.
- Você deve ser o aluno transferido. – Anunciou Sr. Peterson, recebendo apenas uma confirmação com um movimento de cabeça. – Muito bem Sr. Armstrong, sente-se ali na frente da Srta. Walker, ok? – Como eu temia. Saco! Tinham poucos lugares vazios na sala, mas tinham. Por que exatamente ali?
Senti meu rosto corar quando ele sorriu ao me ver. – É, já nos conhecemos. Obrigada professor.
Agora eu não estava mais corada, já sentia meu rosto queimar. Todos os olhares da sala estavam voltados para mim, e obviamente, não pude deixar de ouvir a exclamação de Tiffany ao anunciar que eu finalmente havia socializado com alguém. A ignorei e apenas me afundei mais alguns centímetros na cadeira. Tinha como ser pior? Certamente tinha.
O Sr. Armstrong, como o professor o havia chamado, caminhou a passos rápidos até chegar ao fundo da sala. Colocou sua mochila no chão, e sentou-se de lado, para poder me olhar, além de esticar a mão sobre a minha mesa, como que para me cumprimentar. Eu sabia o que vinha a seguir: meu braço ficou todo arrepiado quando toquei sua mão. Mas ele me surpreendeu ainda mais. Segurou minha mão, e a levou até seus lábios, beijando-a.
– Começaremos certo dessa vez. – Ele afirmou, com um sorriso divertido nos lábios. – Sou Derick Lewis Armstrong. Prazer em conhecê-la.
– Achei que tinha dito que já nos conhecíamos. – Falei sem pensar, soltando rapidamente minha mão. – Ahn, er... Sou Sharon.
– Achei que dizer que já conhecia alguém daqui seria um modo de quebrar aquele clima estranho que sempre se forma entre a classe e o aluno novo. – E rondou com o olhar algumas pessoas ao nosso redor que insistiam em continuar nos encarando.
Derick virou para frente, pegando seu material para poder acompanhar a aula. Eu podia sentir meu rosto ainda queimando. Talvez tenha sido a formalidade com que ele me tratou, ou os olhares fulminantes da Fanny (apelido carinhoso-irônico que eu dei para minha linda cunhada), ou talvez ainda o formigamento no meu braço. Não sei dizer o que foi pior.
Nenhuma outra situação desconfortante aconteceu até bater o sinal. Todo mundo começou a juntar suas coisas para ir para a próxima aula, como de costume. Julie disse que passaria no banheiro antes da aula de História e saiu, enquanto eu concluía minhas anotações, sem perceber que Derick estava ao meu lado, olhando.
– O que você ainda está fazendo aqui? – Pergunte, evidentemente confusa com a situação.
– Achei que poderíamos ir juntos. Mas se você não quiser, eu posso... – E começou a caminhar. Onde estava a minha educação, meu Deus?
– Não, tudo bem. Desculpe... Er, você não conhece o colégio direito, né?
– É mais ou menos. A secretária da diretoria me mostrou os lugares principais, mas mesmo assim, ainda é meio confuso. – Dei um pequeno sorriso, ainda sem entender como eu fui parar ali, sozinha, com ele.
Caminhamos sem conversar muito, pois eu ainda me sentia desconfortável com a situação. Quando chegamos, todos estavam se sentando, porque o Sr. Mitchell já estava em sala. Fui para meu costumeiro lugar, no fundo da sala. Notei que Julie havia reservado lugar para Derick também. A fuzilei com o olhar enquanto ela apenas dava de ombros, com um pequeno sorriso brincando nos lábios.
Por mais que História estivesse entre minhas matérias preferidas, apenas abri o livro na página solicitada e o deixei no canto da mesa, sem prestar muita atenção no que o professor falava. Em meu caderno, comecei a rabiscar uns traços aleatórios, que foram tomando forma com o passar da aula. Quando soou o sinal, Derick já estava com seus olhinhos verdes brilhando para mim
– Você desenha bem. – Ele disse, enquanto analisava com atenção os traços do meu caderno. Não tinha nada em mente, não pretendia desenhar nada com uma forma definida, mas pude perceber algumas pessoas sentadas na arquibancada de um ginásio esportivo.
– Eu... Nem sei o que estava fazendo. – Fechei bruscamente o caderno, enquanto juntava minhas coisas para sair. – Mas obrigada. Vamos?
Hora do almoço. Fui até o meu armário guardar os livros, e ironicamente, o armário dele ficava bem próximo ao meu. Perseguição? Estava mais para paranóia minha.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Capítulo VI

Desci as escadas correndo, convicta de que era a minha loira preferida que estaria lá me esperando, impaciente para estourar o limite de algum cartão de crédito. Já estava pronta para reclamar que ela não tinha me ligado quando levei um susto percebendo que não era ela.
Ao contrário de uma menina três centímetros mais alta do que eu, agitada e com um sorriso sempre radiante, me deparei com um menino de pele levemente bronzeada, cabelos loiríssimos, com um olhar azul tão profundo que faria qualquer menina perder o ar. Como aconteceu comigo.
– Bryan? O que faz aqui? – Estava totalmente confusa sobre o fato dele estar na minha sala, em um sábado de manhã, com um pequeno embrulho nas mãos. – Se está procurando o Adam, eu acho que ele...
– Não! É... Eu vim falar com você, Shar. – Ele parecia tenso. Ele estava corando? – Seu irmão me falou que você não estava muito bem ontem. Vim ver como você está.
Lembro-me do dia em que o conheci como se fosse ontem. Eu estava voltando da aula de violino animada com o meu rápido progresso no aprendizado do instrumento que nem percebi que o Adam estava com visitas. Fiquei tão chocada com aquele menino que acidentalmente deixei cair todas as minhas partituras. Ele gentilmente me ajudou a pegá-las do chão, aproveitando a proximidade para me cumprimentar com um respeitoso aperto de mão. Eu devia estar corada porque sem perda de tempo meu irmão começou a tirar com a minha cara. Fiquei furiosa e dei um jeito de sair dali o mais rápido possível, mas nunca esqueci o que aqueles sublimes olhos azuis me fizeram sentir. Amor a primeira vista, talvez.
            Nós nunca fomos muito próximos. Conversamos às vezes pelos corredores do colégio, ou quando ele aparece aqui em casa, mas nada comparado a isso. Ele se preocupou. Ele tomou uma iniciativa. Ele estava encabulado por minha causa. E eu definitivamente estava surtando por isso.
– Eu, ahn, estou bem. – Na verdade, acho que vou desmaiar. Eu definitivamente não estava entendendo o que aquele gato estava fazendo ali, e ainda mais querendo saber sobre mim. Ele deu um passo vacilante em minha direção, indagando se eu estava mesmo bem, enquanto eu me perdia naqueles olhos perfeitamente azuis. – Eu... Tive apenas um mal estar ontem. Não tenho me alimentado direito, eu acho. Deve ter sido uma conseqüência. Nada demais... Mas agradeço a preocupação.
– Hum, que bom que está melhor, Shar. E, er, isso aqui é para você. – Ele me entregou o pequeno embrulho, com um sorriso tímido nos lábios. – Espero que goste.
Se fosse mais fofo estragava. Peguei o embrulho e puxei a fitinha lilás abrindo o pacote que escondia um pequeno ursinho, segurado um coração. – Awn, que fofo, Bryan. – Sorri para ele, agradecendo. Eu não me sentia confortável naquela situação. Não sabia se meu sorriso estava largo demais, se eu estava corada, se devia convidá-lo para sentar, ou algo assim. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas fiquei grata quando meu irmão apareceu.
– Dae, cara... – Ele olhou do Bryan para mim e então para o ursinho. – Interrompo alguma coisa aqui? – Ele parecia estar confuso e ao mesmo tempo se divertindo com a situação. Ok, eu fiquei grata até ele abrir a boca.
- Ahn, não... Eu... Eu só vim ver como ela estava, mas já estava de saida – Ele estava nervoso, e não pude deixar de rir com isso. Ambos me olharam, como se eu estivesse fazendo algo extremamente bizarro.
- Dá um desconto, Adam. Ele só está tentando ser legal comigo, depois que eu o ajudei com o trabalho de Literatura. – Mas não era só isso, né? Meu debate mental foi interrompido, dessa vez, felizmente, não por um comentário desagradável. Apenas Julie me enviando uma mensagem para avisar que logo chegaria.
Subi para o meu quarto correndo para pegar minha bolsa, e antes de sair de casa, dei uma ultima passada na sala. Adam e Bryan estavam conversando, mas não do modo descontraído de sempre. – Vocês, caras do futebol, precisam relaxar. – Disse, com uma ultima olhada para trás.


Por mais que inicialmente eu não quisesse sair, o dia foi super agradável. Compramos um monte de roupas novas, almoçamos comida japonesa e conversamos sobre o ocorrido com o Bryan. Por mais que ela insistisse que ele estava afim de mim, eu tinha minhas dúvidas. Talvez ele fosse apenas muito gentil.
O dia não pareceu ser o suficiente. Marcamos então uma noite das garotas. Alugamos alguns filmes, pedimos pizza, fizemos pipoca e chocolate quente. Passamos a noite de sábado e a manha de domingo enfurnadas no meu quarto, vendo comédias românticas e comendo besteiras.
Queria que ela passasse a noite de domingo ali também, mas tínhamos aula no dia seguinte. Julie foi embora prometendo que repetiríamos a dose no próximo final de semana e chorosa, apenas concordei.
Na manhã seguinte, acordei inquieta. Eu sonhara com alguma coisa muito, muito ruim, pior do que nas outras noites, mas também não conseguia lembrar de nada com exatidão. Arrumei-me rapidamente e peguei apenas uma maçã para comer no caminho. Estranhei Adam não comentar nada sobre o dia anterior. Ele parecia irritado, mas não reclamou de ter que ir à pé novamente, e nem devia, já que o capitão do time de futebol da escola tinha que praticar umas caminhadas também.
Não conversamos, mas também não brigamos no caminho. Era quase como se eu estivesse sozinha ali, entretanto, agradeci por ele me puxar pelo braço quando quase atravessei a rua sem notar que uma moto estava vindo. Justifiquei-me dizendo que estava sonolenta ainda, e por mais que fosse parcialmente verdade, esse papo não o convenceu, mas também não me forçou a dizer o que me incomodava.
Estranhamente, ele me acompanhou até meu armário e se despediu dizendo que me via no almoço. Aham, claro. Nós nunca nos vemos no colégio, e se nos cruzamos no corredor, nunca conversamos. Somos basicamente estranhos.
Peguei minhas coisas rapidamente, pois queria ir logo para a sala, ligar meu Ipod no ultimo volume e esperar a aula começar. Estava funcionando bem, até a Julie entrar toda eufórica dizendo que teríamos um novo colega de classe.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Capítulo V

Quando entrei em casa, estava tudo silencioso. O fato das minhas coisas estarem jogadas sobre a mesa do hall de entrada só comprovou a ideia de que ele ficara irritado. Subi para tomar um banho quente, pois havia sido um longo e cansativo dia. Estranhei o fato da Mist, minha gata, não estar enrolada e dormindo sobre a minha cama, mas depois a procuro. – Pensei.
Durante o banho comecei a passar mal. Minha cabeça ficou mais pesada, e minhas pernas amoleceram. E como em um daqueles filmes antigos, imagens borradas começaram as passar através dos meus olhos semi cerrados. Achei que a tontura nunca fosse passar, e sabe-se lá porque, tive um vislumbre da Mist dormindo na cama do meu irmão.
Demorei alguns segundos para recobrar decentemente os sentidos e assim que me achei capaz de sair do banheiro coloquei uma roupa mais leve, enrolei meu cabelo molhado em uma toalha, calcei minhas pantufas e sai pela casa procurando minha gata. Comecei pela sala e fui até o salão de jogos, já que ela adorava dormir sobre a mesa de bilhar. Enganada. Ela não estava em lugar nenhum. Fui até o jardim, olhei perto da piscina, na churrasqueira, voltei para dentro entrando pela cozinha, passei pelo salão de jantar e nada. Fui até o escritório do meu pai, mesmo sabendo que era pouco provável que ela tivesse conseguido entrar lá.
Após cansar de andar pelo piso inferior, resolvi olhar novamente pelo meu quarto, pois talvez ela estivesse bem escondida no meu closet. Quando cheguei no alto da escada vi aquela linda bola de pelo acinzentado. Adam a estava segurando e com uma cara que passava longe de estar feliz.
─ Vê se deixa isso aqui longe do meu quarto. – E a empurrou para cima de mim.
─ Eu... Como ela chegou lá? – Perguntei, me lembrando da visão e mal estar que tive no banho.
─ Empurrando a porta com o focinho, talvez? Normalmente os gatos fazem isso, caso ainda não saiba.
─ Eu... Eu a vi na sua cama... – A incompreensão tomou conta de mim. Como eu poderia ter visto aquilo, se não cheguei perto de seu quarto?
─ E não a tirou de lá por quê? Sabe que eu odeio essa coisa peluda. – Ele estava furioso, tanto pela volta da escola, como pela Mist. – Mantenha isso ai longe do meu território. – Falando isso, ele simplesmente me deu as costas e sumiu pelo corredor.
Obviamente, meus pais não chegaram a tempo de jantar conosco. Adam ficou vendo algum jogo estúpido que passava na televisão da cozinha enquanto eu apenas mexia na comida, sem fome. Martha, nossa governanta, perguntou-me se estava tudo bem, se eu não estava com fome ou até mesmo se a comida estava ruim. Tudo estava com uma cara ótima, obviamente, porém os acontecimentos do dia haviam revirado meu estômago de cabeça para baixo. Nem aquele cheiro maravilhoso foi o suficiente para me fazer querer comer alguma coisa.
Enrolei uns minutos na mesa, retirei o meu prato, e subi para o quarto, louca para me atirar debaixo das cobertas. Passei por alguns canais na televisão, procurando um filme ou seriado para assistir, mas nada conseguiu prender minha atenção. Nada tirava a imagem daquele menino da minha cabeça, ou o fato ocorrido durante o banho. Esses pensamentos permaneceram em minha mente por um tempo, entretanto minha dor de cabeça era tamanha que logo adormeci.


Levantei antes de o despertador tocar. Dormi tão mal e acordei tantas vezes durante a noite que foi como se eu não tivesse pregado os olhos cinco minutos. Arrumei-me sem pressa, afinal estava adiantada. Não pretendia comer nada, já que acordei enjoada novamente, mas passei na cozinha para pegar um suco. Levei um susto ao ver Adam ali.
– Estou atrasada? – Disse, apalpando minha bolsa, em busca do celular para conferir as horas.
– Você não é a única que consegue acordar cedo, sabia? – Ele estava de mau humor, evidentemente. Terminou de tomar o seu café e subiu para o quarto, enquanto eu apenas revirei os olhos e fui para a sala ver televisão enquanto esperava ele ficar pronto.
Joguei-me no sofá, brincando entre os canais com o controle remoto. Senti um formigamento na nuca, seguida daquela leve sensação de estar sendo observada. Coloquei-me rapidamente de pé, e tudo o que achei foi um Adam de pijama com uma cara assustada.
– Aff, era você. – Sentei-me novamente, irritada por ele ter me assustado. Como chegara ali tão silenciosamente? Achei tê-lo ouvido batendo a porta do quarto minutos antes.


A semana não terminou tão tranquila. Eu geralmente achava que estava sendo observada. No quarto, na cozinha, no jardim, na escola. Sempre parecia que alguém estava olhando fixamente para mim. Comecei a achar que tinha chegado a hora de procurar um especialista. Um psicólogo ou iria diretamente a um psiquiatra?
Isso tudo me deixava inquieta e estressada, fora o fato de que eu não conseguia comer nada, porque sempre tinha a impressão de que nada iria parar no meu estômago. As dores de cabeça estavam mais fortes que o normal e os sonhos cada vez mais desconexos.
Na sexta feira não fui para a aula. Durante a madrugada acordei trêmula e enjoada. Nem cinco minutos depois tive que levantar correndo e ir ao banheiro expelir o que voltara do meu jantar mal digerido. De manhã me sentia tão fraca que mal consegui levantar da cama. Todos acharam que era melhor eu ficar em casa descansando e assim eu o fiz. Mandei uma mensagem de texto para a Juliet, onde expliquei o que havia acontecido.
Quando sábado finalmente chegou, eu estava mais do que pronta para passar o dia inteiro na cama. Enganada, como sempre. Julie me ligou logo cedo dizendo que iríamos fazer compras. Não me perguntou se eu queria, nem se podia. Apenas disse que me ligaria quando saísse de casa.
Eu já me sentia bem melhor que no dia anterior, então levantei correndo, tomei um banho rápido e procurei algo decente para vestir. Estava saindo do quarto quando Martha surge dizendo que eu tinha visita. Olhei meu celular e vi que não tinha nenhuma chamada perdida. A não ser que não fosse a Julie me esperando na sala.

domingo, 27 de março de 2011

Capítulo IV

O resto do dia se passou tranquilo. Em todas as trocas de aula eu olhava duas vezes pelo corredor antes de sair. Sim, eu estava fugindo daquele estranho. No almoço eu não o vi em lugar algum e me senti incrivelmente aliviada por isso.
Quando o ultimo sinal soou, todos começaram a sair instantaneamente. Arrastei-me para fora da sala, tomando cuidado com todos que passavam apressados por mim. Julie comentou que eu parecia assustada, mas desconversei dizendo que era culpa da dor de cabeça. E em partes era. Nas ultimas semanas minhas dores se tornaram bem frenquentes. Às vezes são enxaquecas, outras são apenas algumas fisgadas na nuca, como se estivessem tentando perfurar meu crânio.
Quando cheguei à frente do colégio, eu o avistei. Reconheceria aquele sorriso a distância depois do nosso pequeno ‘encontro’. Senti-me paralisada. No campo de alcance da minha visão periférica, pude ver Julie e Mark abraçados, Adam com os garotos do futebol, alguns meninos da banda da escola... Mas por um momento, pareceu que era apenas eu e aquele menino. Quando seu olhar encontrou o meu, perdi o ar, e derrubei novamente as coisas que segurava. Eu estava toda arrepiada de novo, e nem havíamos nos tocado, principalmente porque estávamos há uma distância considerável.
Nossa ligação visual foi interrompida quando meu irmão apareceu na minha frente. Acho que nunca na vida estive tão feliz em vê-lo.
─ Desde quando ficou tão desastrada, nanica? – Perguntou ele, recolhendo quase todas as minhas coisas do chão.
─ Eu... É, não sei. – Balancei a cabeça negativamente, como que tentando afugentar a visão daquele menino e a forma como me sentia estranha quando o via.
Adam ficou segurando minhas coisas enquanto já caminhava para a saída, acenando para os amigos que continuavam conversando em sua rodinha estranha. Meus pés pareciam colados ao chão, pois mesmo sabendo que eu devia ir com ele, e que estava parecendo uma idiota parada no meio da escada, eu permanecia sem mexer um músculo.
─ Ow, vamos logo rainha da caminhada. Quero chegar em casa ainda hoje, e graças aos seus caprichos, não temos carro. – Ele estava me olhando com uma cara engraçada. Não estava de mau humor, mas também não estava totalmente feliz. Era preocupação em seu olhar? Impossível.
Quase ouvi um clique no ar e comecei a andar, como se alguém tivesse ligado um botão e eu tivesse voltado a funcionar. Cheguei ao lado do Adam após apressar um pouco o passo, e estiquei o braço para pegar meus livros. Ele se esquivou e continuou andando.
─ Você não me parece estar em condições de carregar nada. Seu braço parecia de gelatina quando derrubou tudo lá atrás. – Ele disse, tentando segurar o riso.
─ Desde quando você se preocupa com o aconteceu ou não comigo? Devolve as minhas coisas. – Disse eu, já ficando estressada.
─ Desde quando você faz papel de monga na frente de todos. E só para constar, não estou preocupado com você.
─ Ah, são só aparências, entendi. Então deveria devolver as minhas coisas, já que agora estamos fora do alcance de visão da sua trupe. – Permaneci com o braço esticado, prevendo que ele fosse me entregar. Enganada novamente. Ele continuou andando, após me lançar um dos seus típicos olhares com sobrancelha arqueada, quando me refiro assim aos seus amigos.
Ficamos em silêncio o resto do caminho, e já estávamos na esquina de casa quando ele parou e se virou para me olhar. Encarou fixamente meus olhos, coisa que ele raramente fazia. Tocou meu ombro e franziu o cenho.
─ Ok, isso está ficando estranho. O que foi agora? – Perguntei dando automaticamente um passo para trás, tentando me livrar da sua mão, que permaneceu firme em meu ombro.
─ Eu só... Você parecia assustada aquela hora na escada, e a Julie comentou que você estava estranha durante as aulas. Aconteceu alguma coisa? – Ele realmente pareceu preocupado quando me perguntou isso. Nós nunca fomos o tipo de irmãos que passam horas conversando, vendo filme ou qualquer outra coisa juntos. Nós mal nos falávamos durante as refeições ou idas e vindas do colégio. A única coisa que fazíamos muito bem, quando estávamos juntos, era ignorar um ao outro ou brigar. Vê-lo se preocupando comigo foi mais assustador do que todo o resto que tinha acontecido hoje.
Pareceu uma eternidade até que consegui me recompor do choque. E mais bizarro que isso, é que caí na gargalhada. Adam não pareceu gostar muito, mas eu simplesmente não consegui evitar. Não foi culpa minha.
─ Sinto muito... – Eu mal conseguia falar, pois já estava ofegante. – Você realmente está preocupado comigo? Quem é você e o que fez com o meu irmão?
─ Pare de ser ridícula, Shar. Eu sempre me preocupo com você. – Disse ele, mas não soou nada convincente.
─ Aham, sempre. – Ignorei a cara amarrada que ele fez, devido ao sarcasmo eminente em minha voz. Continuei andando, já avistando o portão de casa. Percebi que ele desistiu do fingimento assim que me ultrapassou e saiu andando a passos largos até chegar em casa, quando sumiu pelo portão já aberto.
Estava com a sensação de que alguém me observava. Virei bruscamente e juro ter visto alguém dobrando a esquina apressadamente. Voltei pela minha rua meio cautelosa, olhei por todos os lados, mas não havia ninguém por lá. Eu estava ficando paranóica, definitivamente.

terça-feira, 8 de março de 2011

Capítulo III

Ainda sentia meus olhos ardendo, e algumas lágrimas insistindo por rolarem pelo meu rosto. Saí de casa sem me despedir de ninguém. A irritação e desconforto pelo que ocorrera no café da manhã eram tamanhas, que não queria ver nenhum deles no momento. Ignorei o chofer com o carro na entrada, e continuei caminhando até chegar ao portão.
─ A senhorita Walker não vai esperar o carro? – Indagou-me o segurança.
─ Não, não. Prefiro ir caminhando mesmo. Abra-me o portão, por favor.
─ Não tenho autorização para liberá-la, senhorita.
─ Terei que pular então? – Questionei-o, dando um olhar sugestivo para a grade com mais de dois metros.
─ Vamos, abra o portão que também quero sair. – Ouvi uma voz meio rouca dizer atrás de mim.
─ Você pode pegar o carro, Adam. Eu quero ir andando.
─ Sharonzinha, você sabe que não te deixarão sair sem mim, não é? Infelizmente você depende do seu lindo e gostoso irmãozinho aqui. Agora vamos, deixa de ser birrenta. – Empurrou-me pelo portão que estava se abrindo a nossa frente, enquanto eu suspirava pesadamente, tentando me esquivar do seu toque.
No caminho, ele tentou puxar assunto algumas vezes, sem muito sucesso, pois eu preferia manter uma distância saudável, para não me irritar e me magoar ainda mais.
Eram raros os momentos que eu podia sair a pé para algum lugar. Normalmente, só quando meus pais autorizavam com alguma ligação que sempre esqueciam de dar, ou no caso, quando eu estava com meu irmão. Ou seja, quase nunca. Pode não parecer, mas ter um chofer te esperando na porta de casa pode ser muito constrangedor. Sempre me considero vivendo em uma prisão domiciliar.
Eu não me sentia mais tão mal quando chegamos ao colégio Harrow, e ver Juliet claramente melhorou o meu dia. Ela é aquele tipo de pessoa que consegue melhorar a sua semana com apenas um sorriso. E enquanto eu recebia um abraço esmagador dela, pude ver Adam ser envolvido por uma rodinha de jogadores e líderes de torcida. Como ele conseguia aguentar tanta bajulação e falso afeto? Mark surgiu no meio daquele estranho grupo e veio em nossa direção. Parecia bastante animado com a volta às aulas, e em poder passar o dia com a Julie. Deixei os dois em seu casulo de amor, e fui até meu armário. Conferi meu horário, peguei os livros que usaria e fui até a sala. No caminho falei com o pessoal do jornal, que diziam estar ansiosos por minhas matérias. De certa forma, era bom estar de volta.
O sinal bateu e a sala começou a encher automaticamente. Alguns me cumprimentavam quando passavam por mim, outros me olhavam de cima a baixo. Nada com o que eu já não estivesse acostumada. Um ligeiro silêncio percorreu o lugar quando Adam deixou Tiffany na porta da sala. Eles não estavam namorando, mas estavam saindo desde... Bem, não sou de guardar datas de acontecimentos bizarros, mas não fazia muito tempo.
Costumávamos ser amigas, porém a popularidade penetrou e contaminou sua mente, corrompendo-a ainda mais. Ela é capitã das líderes de torcida, naturalmente. E obviamente me odeia, principalmente após eu dizer em sua cara que não havia utilidade nenhuma em ficar vestida com uma micro saia ridícula o ano todo, e ser reconhecida e venerada pelo colégio inteiro.
Praticamente dois terços do colégio não olhou mais na minha cara por isso. Por sorte, Julie não levou isso para o lado pessoal. Ela sabia que eu a achava uma graça com o uniforme de líder, ao contrário do resto delas, Julie não parecia vulgar com aquela roupa.
Bem, Adam apenas arqueou a sobrancelha para a reação de todos ali, e beijou a bochecha dela. Exatamente isso: a bochecha. Pude vê-la corar, e esboçar um sorriso bem forçado. Fui só eu que vi isso? Provavelmente. Adam deu meia volta, e foi para sua sala enquanto o resto da turma soltou o ar (juro que pareceu ser sincronizado) e relaxou, após perceber que não haveria outro surto-histérico-Tiffany. Pelo menos eu torcia para isso.
Matemática era nosso primeiro horário. O professor Peterson entrou com aquele sorriso tímido na sala, mas de alguma forma, eu sabia que ele estava gargalhando por dentro. Às vezes eu tinha a impressão de que poderia saber com uma pessoa se sentia, apenas de vê-la ou tocá-la, apesar de muitos conseguirem esconder bem seus sentimentos. Bobeira minha.
Após algumas piadinhas com a turma, e perguntas básicas sobre como foi o feriado, Sr. Peterson resolveu começar a aula. Revisão sobre geometria seria o tema. Fácil. Não foi necessário prestar muita atenção. Na maior parte do tempo, fiquei trocando bilhetes com a Julie. O assunto que predominou foi a eterna dúvida se Tiffany e Adam já estavam namorando. Tudo indicava que sim, por mais que eu nunca tenha visto os dois se beijando, e ela nunca tenha ido lá em casa.
O sinal bateu e todos começaram a sair, ignorando o dever que o professor ainda anunciav. Pude sentir o ar tremular de uma forma muito estranha. Parei de andar e olhei para ele. Estranho. Normalmente, ele começaria a falar mais alto, ameaçando com um teste surpresa. Hoje, ele apenas suspirou, sorriu, e começou a apagar o quadro, preparando-se para a próxima turma.
Ok, esse lance com o ar foi estranho, mas mais estranho foi o tremor que percorreu o meu corpo quando esbarrei em um menino que estava passando no corredor. Ele se abaixou para juntar minhas coisas, que eu derrubei com o susto.
─ Oh, me desculpe. Eu não vi você, sinto muito. – Ele possuía um sorriso perfeito. Meio tímido, mas pude sentir uma ponta de diversão nele. Eu devia estar com uma cara estúpida, porque ele tocou meu braço, meio preocupado. – Você está bem? Parece assustada. – Foi como se eu tivesse levado um choque. Pude perceber que os pelos do meu braço estavam todos eriçados.
─ Eu na... não. Estou... bem. Só... – O que estava acontecendo comigo? Estava agindo como uma idiota. Peguei as minhas coisas que estavam na mão daquele garoto, evitando tocar sua pele, já que de uma forma muito estranha, meu corpo reagiu ao nosso toque. – Er, preciso ir agora. – E com isso, basicamente sai correndo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Capítulo II

Sharon Ellison Walker, 16 anos, cursando o ensino secundário. Aparentemente, uma típica adolescente com todos os seus dramas emocionais e problemas existenciais, mas vai muito além. Filha de Lucy Walker, uma ex modelo reconhecida mundialmente e atualmente administradora de filiais das empresas Groff&Walker, e Noan Walker, herdeiro majoritário da mesma empresa. Adam Lucas Walker, 17 anos, é um dos veteranos mais populares da Harrow High School, e infelizmente, meu irmão mais velho. Nunca nos demos bem. Talvez seja o nosso gênio, nossas manias, ou o fato dele ser o quarterback do time da escola.
De qualquer forma, somos muito parecidos, fisicamente. Ambos com cabelos escuros e olhos esverdeados. Há quem diga que somos gêmeos. Porém, Adam faz o estilo garanhão. Ele e seu grupinho de jogadores gatos-super-requisitados de futebol paqueram e conquistam todas as garotas do colégio e fora dele. Eu, ao contrário, nunca dei muita moral para nenhum deles, fora o Bryan. Loiro, olhos incrivelmente azuis, carismático, engraçado. Um caso a parte, um Deus a parte.
Por teórica sorte, herdei o corpo da minha mãe. Magra, com centímetros acima da média de altura, cabelos compridos e naturalmente brilhantes. Mas a única coisa que temos em comum é o corpo. Nossos pensamentos e atitudes são totalmente opostos. Venho recusando, desde o semestre passado, todos os seus pedidos insistentes para fazer os testes para líder de torcida. Ela parece não se importar com meu excelente desempenho escolar, e aparentemente ficar sacudindo um pompom durante algumas horas por semana, durante treinos e jogos de futebol parece ser o que realmente a atrai.
Possuo poucos, mas os melhores que alguém poderia ter: Juliet e Mark. Ela, líder de torcida. Ele, jogador de futebol. Não havia algo mais clichê do que isso no meu colégio, ou no resto do país. Porém, eles se destacam dos demais. Juliet sempre foi preocupada com a preservação de animais, e não tão ligada à moda como a maioria. Mark é engraçado, cuidadoso, carinhoso e muito bom em música. Sem dúvida, era o meu casal preferido. Não se preocupavam com o fato de eu não querer me misturar com a panelinha dos populares. Respeitavam meu espaço, e apoiavam minhas loucuras. Andávamos sempre juntos, e claro que quando o clima entre eles ficava digamos... Meloso demais, eu sempre arranjava algum refúgio, seja na biblioteca, no refeitório ou mesmo no meu Ipod.
Não faço o estilo nerd, muito menos tenho a aparência de uma. Apenas gosto de me atualizar com tudo, e talvez por isso eu seja tão criticada. Uma menina tão jovem, tão bonita e tão talentosa não deve ficar enfiada no quarto, com a cabeça enterrada nos livros, vovó costumava dizer. Agora, nem mesmo ela tem tempo para me dar uma bronca que seja.
Muitas coisas têm acontecido nos últimos meses, e eu mal sabia que era só o começo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Capítulo I

Finalmente, o primeiro dia de aula depois do recesso de inverno. Não digo que estava ansiosa e muito menos animada. A Harrow High School estava se tornando o meu maior pesadelo. Ver diariamente garotas mimadas ansiosas por suas próximas compras ou garotos que estava chapados em 99% do tempo, devo admitir que não era mesmo o meu maior sonho de vida. Mas lá fui eu.
Desliguei meu despertador, saltando da cama diretamente para minhas pantufas de joaninhas. Eu as havia ganhado de minha avó, no Natal passado, e desde então não conseguia parar de usá-las. Talvez essa fosse uma forma de me manter próxima da vovó.  Ela andava tão ocupada com os negócios das empresas da família que mal tinha tempo para vir me ver.
Ainda meio sonolenta, arrastei-me para o banheiro. Fui me despindo no meio do caminho, de maneira que ao chegar ao box, já me enfiei debaixo da água fria. Quem sabe assim eu acordasse logo. Calça jeans com um moletom e meu all star preferido era o meu melhor look. Desci para tomar café.
Das escadas já podia ouvir que o resto da casa já estava de pé. Chegando à cozinha pude ver que minha mãe se servia de uma xícara de café forte, meu pai habitualmente lia o jornal comendo uma fruta e meu irmão conseguiu estar com uma cara pior do que a minha.
─ Hey, Adanzinho, final de semana foi bom então? – Cutuquei-o no abdômen, enquanto passava para chegar ao meu lugar na mesa, onde panquecas quentes me esperavam.
─ Não enche, nanica. – Retrucou ele, de péssimo humor.
─ Adam, Sharon... Não comecem. – O máximo que minha mãe fez foi arquear uma sobrancelha, enquanto o olhar permanecia fixo no notebook, que até então eu não havia notado estar em cima da mesa.
─ Mãe? Você poderia largar isso pelo menos no café?
─ Querida, os negócios andam tão corridos, não posso parar agora... – E ela continuava a digitar rapidamente, totalmente concentrada naquilo.
Olhei para ela por mais alguns segundos, incrédula com a situação. Meu pai só se moveu o suficiente para virar a página do jornal e pegar mais um pedaço de sua maçã. Adam continuava meio dormindo, meio acordado, enchendo suas panquecas com cobertura. Ninguém ali parecia ligar para o que acontecia.
Soltei o garfo, que bateu com agressividade no prato. Foi o bastante para fazer minha mãe parar de digitar, mas não o bastante para me fazer parar de andar. Já estava a meio caminho de sair da cozinha. Subi as escadas de dois em dois degraus, e em segundos já estava em meu quarto novamente.
Bati a porta tão forte que eu mesma de assustei. Chequei meu cabelo, e fiz uma maquiagem básica: rímel e gloss. Nunca fui uma garota vaidosa, não passava horas e horas no salão, procurando o visual perfeito, mas também não era tão descuidada. “Não podia manchar a imagem da família, por ser vista vestida como uma moradora de rua”, como mamãe costumava dizer, ao me ver com um fio de cabelo fora do lugar.
Joguei minha bolsa no ombro, peguei meu Ipod, ligando-o no volume mais alto suportado por meus ouvidos. Dei mais uma olhada no espelho e tentei sorrir. Isso afugentou as lágrimas por enquanto.

Prólogo.



─ Façam isso parar! – gritei.
Aquela era a minha voz. Sabia que a dor estava dentro do meu corpo, mas eu não a sentia. A queimação chegou a tal estágio que era como se eu não estivesse lá, como se eu fosse apenas uma observadora do meu próprio corpo.
Meus pais estavam ao meu lado e eu podia sentir braços carinhosos me envolvendo, mas não passava de um leve formigamento. Aquilo que ardia em meu peito era muito mais forte do que qualquer outro toque externo contra a minha pele febril. Mais forte do que qualquer outra coisa que eu já havia sentido.
E naquele momento eu sabia que a transformação havia começado.