Minha cabeça
ia explodir se algo pior acontecesse. Mandei uma mensagem para o Adam, avisando
que demoraria para sair. Eu só precisava de alguns minutos sozinha, e a
caminhada para casa era a minha única chance. Enrolei no vestiário o máximo que
pude, e percorri os corredores vazios do colégio sem a mínima pressa. Alguém
estava martelando meu crânio? Eu realmente devia carregar algumas aspirinas na
bolsa.
Martha ficaria
louca se eu não aparecesse para lanchar, eu sabia disso, mas todos precisam de
um descanso para a mente. Não sei por que raios eu precisava disso exatamente
hoje, ou porque este havia sido um dia tão terrível, mas algo estava realmente
errado comigo.
Perambulei por
aquelas ruas movimentadas, passando por muitas pessoas que tinham rumo, mas não
aparentavam ter um objetivo. Elas tinham pressa, corriam contra o tempo,
atropelavam tudo em seu caminho, mas para quê? O que somos nós, senão metas
ainda não alcançadas? Podíamos viver bem sem ter ao menos realizado um grande
sonho?
Quando
finalmente dei por mim, estava neste parque. Olhei para trás e, como nunca
antes, dei-me conta de que aqueles prédios altos escondiam um pedacinho do paraíso.
Os raios de sol refletidos na água, o cheirinho doce das flores, as folhas
balançadas por aquela leve brisa. Não era a primeira vez que eu passava por aqui,
mas este parecia um novo lugar. Eu sentia como se estivesse me renovando e, ao
contrário de minutos atrás, permiti que a angústia armazenada em mim também
pudesse desfrutar de toda esta beleza.
As lágrimas
foram percorrendo o meu rosto, mas não eram carregadas de tristeza. Alívio,
talvez essa seja a definição certa, como se um peso saísse dos meus ombros. Apoiei
minhas costas no tronco da árvore mais próxima e lentamente fui me aproximando
do chão. Minha visão embaçada continuava presa nos reflexos solares e, não mais
do que de repente, aquela imagem tomou conta de mim. Um flash, apenas um
segundo. E aquele arrepio novamente. Era um casal? Fechei meus olhos tentando
rever aquela cena. Definitivamente era um casal, e me era familiar. O lugar não,
era sombrio, e eu não lembrava de jamais ter estado lá.
O sol
finalmente se pôs e com isso percebi que estava na hora de voltar para a
realidade. Peguei minha mochila e, com dificuldade, levantei do chão me
apoiando na árvore. As ruas não estavam mais tão cheias. Àquela hora, as
pessoas já deviam ter chego a seu destino e, por mais que eu relutasse a cada
passo, era a minha vez de fazer o mesmo.
As luzes do
jardim já estavam acesas e previ que teria uma governanta furiosa me esperando
no hall de entrada. Não deu outra.
– Aonde você
estava, mocinha? Quer que eu tenha um ataque cardíaco antes da hora? – Braços cruzados,
pé balançando impacientemente e uma cara nada amigável.
– Estava por
ai, agora estou por aqui. – Procurei sorrir, tentando acalmar a fera.
– E da próxima
vez que você sair sem me avisar terão partes suas por toda essa cidade. Fique
avisada. – E subiu as escadas, ainda furiosa.
Passei na
cozinha para pegar algo para comer, e logo subi para o meu quarto, pois um
banho quente era a única coisa que faltava para concluir esse dia tumultuado.
Adormeci
rapidamente nessa noite, porém meus sonhos não foram mais calmos do que quando
eu estava acordada. Começou com aquela ‘visão’ que tive no parque, porém eu não
era apenas uma observadora, eu era aquela menina. E agora compreendi o que era
aquele lugar: a entrada para uma floresta. Os galhos das árvores balançavam de
um jeito sinistro, como se fossem me arrastar para dentro daquela mata. Eu tremi, pensando nessa possibilidade. O
menino ao meu lado também estava tenso, olhando ao nosso redor, e me pergunto quem ou
o que ele temia.
Quando ele
tentou me puxar para o meio daquelas árvores, eu corri. Corri o máximo que pude
na direção oposta. Avistei um casarão pouco iluminado e, por mais que não
parecesse o melhor lugar para se viver, aparentemente era o local mais seguro por ali.
O portão estava semi-aberto, então entrei em disparada. Bati algumas
vezes na porta de entrada que com um rangido se abriu. Estava tudo tão escuro,
meu coração estava tão acelerado e minha respiração ofegante. Tateei a parede
em busca de um interruptor. A baixa iluminação me permitiu reconhecer aquele lugar. E por mais estranho que pareça, eu estava no colégio.
