Finalmente, o primeiro dia de aula depois do recesso de inverno. Não digo que estava ansiosa e muito menos animada. A Harrow High School estava se tornando o meu maior pesadelo. Ver diariamente garotas mimadas ansiosas por suas próximas compras ou garotos que estava chapados em 99% do tempo, devo admitir que não era mesmo o meu maior sonho de vida. Mas lá fui eu.
Desliguei meu despertador, saltando da cama diretamente para minhas pantufas de joaninhas. Eu as havia ganhado de minha avó, no Natal passado, e desde então não conseguia parar de usá-las. Talvez essa fosse uma forma de me manter próxima da vovó. Ela andava tão ocupada com os negócios das empresas da família que mal tinha tempo para vir me ver.
Ainda meio sonolenta, arrastei-me para o banheiro. Fui me despindo no meio do caminho, de maneira que ao chegar ao box, já me enfiei debaixo da água fria. Quem sabe assim eu acordasse logo. Calça jeans com um moletom e meu all star preferido era o meu melhor look. Desci para tomar café.
Das escadas já podia ouvir que o resto da casa já estava de pé. Chegando à cozinha pude ver que minha mãe se servia de uma xícara de café forte, meu pai habitualmente lia o jornal comendo uma fruta e meu irmão conseguiu estar com uma cara pior do que a minha.
─ Hey, Adanzinho, final de semana foi bom então? – Cutuquei-o no abdômen, enquanto passava para chegar ao meu lugar na mesa, onde panquecas quentes me esperavam.
─ Não enche, nanica. – Retrucou ele, de péssimo humor.
─ Adam, Sharon... Não comecem. – O máximo que minha mãe fez foi arquear uma sobrancelha, enquanto o olhar permanecia fixo no notebook, que até então eu não havia notado estar em cima da mesa.
─ Mãe? Você poderia largar isso pelo menos no café?
─ Querida, os negócios andam tão corridos, não posso parar agora... – E ela continuava a digitar rapidamente, totalmente concentrada naquilo.
Olhei para ela por mais alguns segundos, incrédula com a situação. Meu pai só se moveu o suficiente para virar a página do jornal e pegar mais um pedaço de sua maçã. Adam continuava meio dormindo, meio acordado, enchendo suas panquecas com cobertura. Ninguém ali parecia ligar para o que acontecia.
Soltei o garfo, que bateu com agressividade no prato. Foi o bastante para fazer minha mãe parar de digitar, mas não o bastante para me fazer parar de andar. Já estava a meio caminho de sair da cozinha. Subi as escadas de dois em dois degraus, e em segundos já estava em meu quarto novamente.
Bati a porta tão forte que eu mesma de assustei. Chequei meu cabelo, e fiz uma maquiagem básica: rímel e gloss. Nunca fui uma garota vaidosa, não passava horas e horas no salão, procurando o visual perfeito, mas também não era tão descuidada. “Não podia manchar a imagem da família, por ser vista vestida como uma moradora de rua”, como mamãe costumava dizer, ao me ver com um fio de cabelo fora do lugar.
Joguei minha bolsa no ombro, peguei meu Ipod, ligando-o no volume mais alto suportado por meus ouvidos. Dei mais uma olhada no espelho e tentei sorrir. Isso afugentou as lágrimas por enquanto.
