O resto do dia se passou tranquilo. Em todas as trocas de aula eu olhava duas vezes pelo corredor antes de sair. Sim, eu estava fugindo daquele estranho. No almoço eu não o vi em lugar algum e me senti incrivelmente aliviada por isso.
Quando o ultimo sinal soou, todos começaram a sair instantaneamente. Arrastei-me para fora da sala, tomando cuidado com todos que passavam apressados por mim. Julie comentou que eu parecia assustada, mas desconversei dizendo que era culpa da dor de cabeça. E em partes era. Nas ultimas semanas minhas dores se tornaram bem frenquentes. Às vezes são enxaquecas, outras são apenas algumas fisgadas na nuca, como se estivessem tentando perfurar meu crânio.
Quando cheguei à frente do colégio, eu o avistei. Reconheceria aquele sorriso a distância depois do nosso pequeno ‘encontro’. Senti-me paralisada. No campo de alcance da minha visão periférica, pude ver Julie e Mark abraçados, Adam com os garotos do futebol, alguns meninos da banda da escola... Mas por um momento, pareceu que era apenas eu e aquele menino. Quando seu olhar encontrou o meu, perdi o ar, e derrubei novamente as coisas que segurava. Eu estava toda arrepiada de novo, e nem havíamos nos tocado, principalmente porque estávamos há uma distância considerável.
Nossa ligação visual foi interrompida quando meu irmão apareceu na minha frente. Acho que nunca na vida estive tão feliz em vê-lo.
─ Desde quando ficou tão desastrada, nanica? – Perguntou ele, recolhendo quase todas as minhas coisas do chão.
─ Eu... É, não sei. – Balancei a cabeça negativamente, como que tentando afugentar a visão daquele menino e a forma como me sentia estranha quando o via.
Adam ficou segurando minhas coisas enquanto já caminhava para a saída, acenando para os amigos que continuavam conversando em sua rodinha estranha. Meus pés pareciam colados ao chão, pois mesmo sabendo que eu devia ir com ele, e que estava parecendo uma idiota parada no meio da escada, eu permanecia sem mexer um músculo.
─ Ow, vamos logo rainha da caminhada. Quero chegar em casa ainda hoje, e graças aos seus caprichos, não temos carro. – Ele estava me olhando com uma cara engraçada. Não estava de mau humor, mas também não estava totalmente feliz. Era preocupação em seu olhar? Impossível.
Quase ouvi um clique no ar e comecei a andar, como se alguém tivesse ligado um botão e eu tivesse voltado a funcionar. Cheguei ao lado do Adam após apressar um pouco o passo, e estiquei o braço para pegar meus livros. Ele se esquivou e continuou andando.
─ Você não me parece estar em condições de carregar nada. Seu braço parecia de gelatina quando derrubou tudo lá atrás. – Ele disse, tentando segurar o riso.
─ Desde quando você se preocupa com o aconteceu ou não comigo? Devolve as minhas coisas. – Disse eu, já ficando estressada.
─ Desde quando você faz papel de monga na frente de todos. E só para constar, não estou preocupado com você.
─ Ah, são só aparências, entendi. Então deveria devolver as minhas coisas, já que agora estamos fora do alcance de visão da sua trupe. – Permaneci com o braço esticado, prevendo que ele fosse me entregar. Enganada novamente. Ele continuou andando, após me lançar um dos seus típicos olhares com sobrancelha arqueada, quando me refiro assim aos seus amigos.
Ficamos em silêncio o resto do caminho, e já estávamos na esquina de casa quando ele parou e se virou para me olhar. Encarou fixamente meus olhos, coisa que ele raramente fazia. Tocou meu ombro e franziu o cenho.
─ Ok, isso está ficando estranho. O que foi agora? – Perguntei dando automaticamente um passo para trás, tentando me livrar da sua mão, que permaneceu firme em meu ombro.
─ Eu só... Você parecia assustada aquela hora na escada, e a Julie comentou que você estava estranha durante as aulas. Aconteceu alguma coisa? – Ele realmente pareceu preocupado quando me perguntou isso. Nós nunca fomos o tipo de irmãos que passam horas conversando, vendo filme ou qualquer outra coisa juntos. Nós mal nos falávamos durante as refeições ou idas e vindas do colégio. A única coisa que fazíamos muito bem, quando estávamos juntos, era ignorar um ao outro ou brigar. Vê-lo se preocupando comigo foi mais assustador do que todo o resto que tinha acontecido hoje.
Pareceu uma eternidade até que consegui me recompor do choque. E mais bizarro que isso, é que caí na gargalhada. Adam não pareceu gostar muito, mas eu simplesmente não consegui evitar. Não foi culpa minha.
─ Sinto muito... – Eu mal conseguia falar, pois já estava ofegante. – Você realmente está preocupado comigo? Quem é você e o que fez com o meu irmão?
─ Pare de ser ridícula, Shar. Eu sempre me preocupo com você. – Disse ele, mas não soou nada convincente.
─ Aham, sempre. – Ignorei a cara amarrada que ele fez, devido ao sarcasmo eminente em minha voz. Continuei andando, já avistando o portão de casa. Percebi que ele desistiu do fingimento assim que me ultrapassou e saiu andando a passos largos até chegar em casa, quando sumiu pelo portão já aberto.
Estava com a sensação de que alguém me observava. Virei bruscamente e juro ter visto alguém dobrando a esquina apressadamente. Voltei pela minha rua meio cautelosa, olhei por todos os lados, mas não havia ninguém por lá. Eu estava ficando paranóica, definitivamente.