domingo, 27 de março de 2011

Capítulo IV

O resto do dia se passou tranquilo. Em todas as trocas de aula eu olhava duas vezes pelo corredor antes de sair. Sim, eu estava fugindo daquele estranho. No almoço eu não o vi em lugar algum e me senti incrivelmente aliviada por isso.
Quando o ultimo sinal soou, todos começaram a sair instantaneamente. Arrastei-me para fora da sala, tomando cuidado com todos que passavam apressados por mim. Julie comentou que eu parecia assustada, mas desconversei dizendo que era culpa da dor de cabeça. E em partes era. Nas ultimas semanas minhas dores se tornaram bem frenquentes. Às vezes são enxaquecas, outras são apenas algumas fisgadas na nuca, como se estivessem tentando perfurar meu crânio.
Quando cheguei à frente do colégio, eu o avistei. Reconheceria aquele sorriso a distância depois do nosso pequeno ‘encontro’. Senti-me paralisada. No campo de alcance da minha visão periférica, pude ver Julie e Mark abraçados, Adam com os garotos do futebol, alguns meninos da banda da escola... Mas por um momento, pareceu que era apenas eu e aquele menino. Quando seu olhar encontrou o meu, perdi o ar, e derrubei novamente as coisas que segurava. Eu estava toda arrepiada de novo, e nem havíamos nos tocado, principalmente porque estávamos há uma distância considerável.
Nossa ligação visual foi interrompida quando meu irmão apareceu na minha frente. Acho que nunca na vida estive tão feliz em vê-lo.
─ Desde quando ficou tão desastrada, nanica? – Perguntou ele, recolhendo quase todas as minhas coisas do chão.
─ Eu... É, não sei. – Balancei a cabeça negativamente, como que tentando afugentar a visão daquele menino e a forma como me sentia estranha quando o via.
Adam ficou segurando minhas coisas enquanto já caminhava para a saída, acenando para os amigos que continuavam conversando em sua rodinha estranha. Meus pés pareciam colados ao chão, pois mesmo sabendo que eu devia ir com ele, e que estava parecendo uma idiota parada no meio da escada, eu permanecia sem mexer um músculo.
─ Ow, vamos logo rainha da caminhada. Quero chegar em casa ainda hoje, e graças aos seus caprichos, não temos carro. – Ele estava me olhando com uma cara engraçada. Não estava de mau humor, mas também não estava totalmente feliz. Era preocupação em seu olhar? Impossível.
Quase ouvi um clique no ar e comecei a andar, como se alguém tivesse ligado um botão e eu tivesse voltado a funcionar. Cheguei ao lado do Adam após apressar um pouco o passo, e estiquei o braço para pegar meus livros. Ele se esquivou e continuou andando.
─ Você não me parece estar em condições de carregar nada. Seu braço parecia de gelatina quando derrubou tudo lá atrás. – Ele disse, tentando segurar o riso.
─ Desde quando você se preocupa com o aconteceu ou não comigo? Devolve as minhas coisas. – Disse eu, já ficando estressada.
─ Desde quando você faz papel de monga na frente de todos. E só para constar, não estou preocupado com você.
─ Ah, são só aparências, entendi. Então deveria devolver as minhas coisas, já que agora estamos fora do alcance de visão da sua trupe. – Permaneci com o braço esticado, prevendo que ele fosse me entregar. Enganada novamente. Ele continuou andando, após me lançar um dos seus típicos olhares com sobrancelha arqueada, quando me refiro assim aos seus amigos.
Ficamos em silêncio o resto do caminho, e já estávamos na esquina de casa quando ele parou e se virou para me olhar. Encarou fixamente meus olhos, coisa que ele raramente fazia. Tocou meu ombro e franziu o cenho.
─ Ok, isso está ficando estranho. O que foi agora? – Perguntei dando automaticamente um passo para trás, tentando me livrar da sua mão, que permaneceu firme em meu ombro.
─ Eu só... Você parecia assustada aquela hora na escada, e a Julie comentou que você estava estranha durante as aulas. Aconteceu alguma coisa? – Ele realmente pareceu preocupado quando me perguntou isso. Nós nunca fomos o tipo de irmãos que passam horas conversando, vendo filme ou qualquer outra coisa juntos. Nós mal nos falávamos durante as refeições ou idas e vindas do colégio. A única coisa que fazíamos muito bem, quando estávamos juntos, era ignorar um ao outro ou brigar. Vê-lo se preocupando comigo foi mais assustador do que todo o resto que tinha acontecido hoje.
Pareceu uma eternidade até que consegui me recompor do choque. E mais bizarro que isso, é que caí na gargalhada. Adam não pareceu gostar muito, mas eu simplesmente não consegui evitar. Não foi culpa minha.
─ Sinto muito... – Eu mal conseguia falar, pois já estava ofegante. – Você realmente está preocupado comigo? Quem é você e o que fez com o meu irmão?
─ Pare de ser ridícula, Shar. Eu sempre me preocupo com você. – Disse ele, mas não soou nada convincente.
─ Aham, sempre. – Ignorei a cara amarrada que ele fez, devido ao sarcasmo eminente em minha voz. Continuei andando, já avistando o portão de casa. Percebi que ele desistiu do fingimento assim que me ultrapassou e saiu andando a passos largos até chegar em casa, quando sumiu pelo portão já aberto.
Estava com a sensação de que alguém me observava. Virei bruscamente e juro ter visto alguém dobrando a esquina apressadamente. Voltei pela minha rua meio cautelosa, olhei por todos os lados, mas não havia ninguém por lá. Eu estava ficando paranóica, definitivamente.

terça-feira, 8 de março de 2011

Capítulo III

Ainda sentia meus olhos ardendo, e algumas lágrimas insistindo por rolarem pelo meu rosto. Saí de casa sem me despedir de ninguém. A irritação e desconforto pelo que ocorrera no café da manhã eram tamanhas, que não queria ver nenhum deles no momento. Ignorei o chofer com o carro na entrada, e continuei caminhando até chegar ao portão.
─ A senhorita Walker não vai esperar o carro? – Indagou-me o segurança.
─ Não, não. Prefiro ir caminhando mesmo. Abra-me o portão, por favor.
─ Não tenho autorização para liberá-la, senhorita.
─ Terei que pular então? – Questionei-o, dando um olhar sugestivo para a grade com mais de dois metros.
─ Vamos, abra o portão que também quero sair. – Ouvi uma voz meio rouca dizer atrás de mim.
─ Você pode pegar o carro, Adam. Eu quero ir andando.
─ Sharonzinha, você sabe que não te deixarão sair sem mim, não é? Infelizmente você depende do seu lindo e gostoso irmãozinho aqui. Agora vamos, deixa de ser birrenta. – Empurrou-me pelo portão que estava se abrindo a nossa frente, enquanto eu suspirava pesadamente, tentando me esquivar do seu toque.
No caminho, ele tentou puxar assunto algumas vezes, sem muito sucesso, pois eu preferia manter uma distância saudável, para não me irritar e me magoar ainda mais.
Eram raros os momentos que eu podia sair a pé para algum lugar. Normalmente, só quando meus pais autorizavam com alguma ligação que sempre esqueciam de dar, ou no caso, quando eu estava com meu irmão. Ou seja, quase nunca. Pode não parecer, mas ter um chofer te esperando na porta de casa pode ser muito constrangedor. Sempre me considero vivendo em uma prisão domiciliar.
Eu não me sentia mais tão mal quando chegamos ao colégio Harrow, e ver Juliet claramente melhorou o meu dia. Ela é aquele tipo de pessoa que consegue melhorar a sua semana com apenas um sorriso. E enquanto eu recebia um abraço esmagador dela, pude ver Adam ser envolvido por uma rodinha de jogadores e líderes de torcida. Como ele conseguia aguentar tanta bajulação e falso afeto? Mark surgiu no meio daquele estranho grupo e veio em nossa direção. Parecia bastante animado com a volta às aulas, e em poder passar o dia com a Julie. Deixei os dois em seu casulo de amor, e fui até meu armário. Conferi meu horário, peguei os livros que usaria e fui até a sala. No caminho falei com o pessoal do jornal, que diziam estar ansiosos por minhas matérias. De certa forma, era bom estar de volta.
O sinal bateu e a sala começou a encher automaticamente. Alguns me cumprimentavam quando passavam por mim, outros me olhavam de cima a baixo. Nada com o que eu já não estivesse acostumada. Um ligeiro silêncio percorreu o lugar quando Adam deixou Tiffany na porta da sala. Eles não estavam namorando, mas estavam saindo desde... Bem, não sou de guardar datas de acontecimentos bizarros, mas não fazia muito tempo.
Costumávamos ser amigas, porém a popularidade penetrou e contaminou sua mente, corrompendo-a ainda mais. Ela é capitã das líderes de torcida, naturalmente. E obviamente me odeia, principalmente após eu dizer em sua cara que não havia utilidade nenhuma em ficar vestida com uma micro saia ridícula o ano todo, e ser reconhecida e venerada pelo colégio inteiro.
Praticamente dois terços do colégio não olhou mais na minha cara por isso. Por sorte, Julie não levou isso para o lado pessoal. Ela sabia que eu a achava uma graça com o uniforme de líder, ao contrário do resto delas, Julie não parecia vulgar com aquela roupa.
Bem, Adam apenas arqueou a sobrancelha para a reação de todos ali, e beijou a bochecha dela. Exatamente isso: a bochecha. Pude vê-la corar, e esboçar um sorriso bem forçado. Fui só eu que vi isso? Provavelmente. Adam deu meia volta, e foi para sua sala enquanto o resto da turma soltou o ar (juro que pareceu ser sincronizado) e relaxou, após perceber que não haveria outro surto-histérico-Tiffany. Pelo menos eu torcia para isso.
Matemática era nosso primeiro horário. O professor Peterson entrou com aquele sorriso tímido na sala, mas de alguma forma, eu sabia que ele estava gargalhando por dentro. Às vezes eu tinha a impressão de que poderia saber com uma pessoa se sentia, apenas de vê-la ou tocá-la, apesar de muitos conseguirem esconder bem seus sentimentos. Bobeira minha.
Após algumas piadinhas com a turma, e perguntas básicas sobre como foi o feriado, Sr. Peterson resolveu começar a aula. Revisão sobre geometria seria o tema. Fácil. Não foi necessário prestar muita atenção. Na maior parte do tempo, fiquei trocando bilhetes com a Julie. O assunto que predominou foi a eterna dúvida se Tiffany e Adam já estavam namorando. Tudo indicava que sim, por mais que eu nunca tenha visto os dois se beijando, e ela nunca tenha ido lá em casa.
O sinal bateu e todos começaram a sair, ignorando o dever que o professor ainda anunciav. Pude sentir o ar tremular de uma forma muito estranha. Parei de andar e olhei para ele. Estranho. Normalmente, ele começaria a falar mais alto, ameaçando com um teste surpresa. Hoje, ele apenas suspirou, sorriu, e começou a apagar o quadro, preparando-se para a próxima turma.
Ok, esse lance com o ar foi estranho, mas mais estranho foi o tremor que percorreu o meu corpo quando esbarrei em um menino que estava passando no corredor. Ele se abaixou para juntar minhas coisas, que eu derrubei com o susto.
─ Oh, me desculpe. Eu não vi você, sinto muito. – Ele possuía um sorriso perfeito. Meio tímido, mas pude sentir uma ponta de diversão nele. Eu devia estar com uma cara estúpida, porque ele tocou meu braço, meio preocupado. – Você está bem? Parece assustada. – Foi como se eu tivesse levado um choque. Pude perceber que os pelos do meu braço estavam todos eriçados.
─ Eu na... não. Estou... bem. Só... – O que estava acontecendo comigo? Estava agindo como uma idiota. Peguei as minhas coisas que estavam na mão daquele garoto, evitando tocar sua pele, já que de uma forma muito estranha, meu corpo reagiu ao nosso toque. – Er, preciso ir agora. – E com isso, basicamente sai correndo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Capítulo II

Sharon Ellison Walker, 16 anos, cursando o ensino secundário. Aparentemente, uma típica adolescente com todos os seus dramas emocionais e problemas existenciais, mas vai muito além. Filha de Lucy Walker, uma ex modelo reconhecida mundialmente e atualmente administradora de filiais das empresas Groff&Walker, e Noan Walker, herdeiro majoritário da mesma empresa. Adam Lucas Walker, 17 anos, é um dos veteranos mais populares da Harrow High School, e infelizmente, meu irmão mais velho. Nunca nos demos bem. Talvez seja o nosso gênio, nossas manias, ou o fato dele ser o quarterback do time da escola.
De qualquer forma, somos muito parecidos, fisicamente. Ambos com cabelos escuros e olhos esverdeados. Há quem diga que somos gêmeos. Porém, Adam faz o estilo garanhão. Ele e seu grupinho de jogadores gatos-super-requisitados de futebol paqueram e conquistam todas as garotas do colégio e fora dele. Eu, ao contrário, nunca dei muita moral para nenhum deles, fora o Bryan. Loiro, olhos incrivelmente azuis, carismático, engraçado. Um caso a parte, um Deus a parte.
Por teórica sorte, herdei o corpo da minha mãe. Magra, com centímetros acima da média de altura, cabelos compridos e naturalmente brilhantes. Mas a única coisa que temos em comum é o corpo. Nossos pensamentos e atitudes são totalmente opostos. Venho recusando, desde o semestre passado, todos os seus pedidos insistentes para fazer os testes para líder de torcida. Ela parece não se importar com meu excelente desempenho escolar, e aparentemente ficar sacudindo um pompom durante algumas horas por semana, durante treinos e jogos de futebol parece ser o que realmente a atrai.
Possuo poucos, mas os melhores que alguém poderia ter: Juliet e Mark. Ela, líder de torcida. Ele, jogador de futebol. Não havia algo mais clichê do que isso no meu colégio, ou no resto do país. Porém, eles se destacam dos demais. Juliet sempre foi preocupada com a preservação de animais, e não tão ligada à moda como a maioria. Mark é engraçado, cuidadoso, carinhoso e muito bom em música. Sem dúvida, era o meu casal preferido. Não se preocupavam com o fato de eu não querer me misturar com a panelinha dos populares. Respeitavam meu espaço, e apoiavam minhas loucuras. Andávamos sempre juntos, e claro que quando o clima entre eles ficava digamos... Meloso demais, eu sempre arranjava algum refúgio, seja na biblioteca, no refeitório ou mesmo no meu Ipod.
Não faço o estilo nerd, muito menos tenho a aparência de uma. Apenas gosto de me atualizar com tudo, e talvez por isso eu seja tão criticada. Uma menina tão jovem, tão bonita e tão talentosa não deve ficar enfiada no quarto, com a cabeça enterrada nos livros, vovó costumava dizer. Agora, nem mesmo ela tem tempo para me dar uma bronca que seja.
Muitas coisas têm acontecido nos últimos meses, e eu mal sabia que era só o começo.