Ainda sentia meus olhos ardendo, e algumas lágrimas insistindo por rolarem pelo meu rosto. Saí de casa sem me despedir de ninguém. A irritação e desconforto pelo que ocorrera no café da manhã eram tamanhas, que não queria ver nenhum deles no momento. Ignorei o chofer com o carro na entrada, e continuei caminhando até chegar ao portão.
─ A senhorita Walker não vai esperar o carro? – Indagou-me o segurança.
─ Não, não. Prefiro ir caminhando mesmo. Abra-me o portão, por favor.
─ Não tenho autorização para liberá-la, senhorita.
─ Terei que pular então? – Questionei-o, dando um olhar sugestivo para a grade com mais de dois metros.
─ Vamos, abra o portão que também quero sair. – Ouvi uma voz meio rouca dizer atrás de mim.
─ Você pode pegar o carro, Adam. Eu quero ir andando.
─ Sharonzinha, você sabe que não te deixarão sair sem mim, não é? Infelizmente você depende do seu lindo e gostoso irmãozinho aqui. Agora vamos, deixa de ser birrenta. – Empurrou-me pelo portão que estava se abrindo a nossa frente, enquanto eu suspirava pesadamente, tentando me esquivar do seu toque.
No caminho, ele tentou puxar assunto algumas vezes, sem muito sucesso, pois eu preferia manter uma distância saudável, para não me irritar e me magoar ainda mais.
Eram raros os momentos que eu podia sair a pé para algum lugar. Normalmente, só quando meus pais autorizavam com alguma ligação que sempre esqueciam de dar, ou no caso, quando eu estava com meu irmão. Ou seja, quase nunca. Pode não parecer, mas ter um chofer te esperando na porta de casa pode ser muito constrangedor. Sempre me considero vivendo em uma prisão domiciliar.
Eu não me sentia mais tão mal quando chegamos ao colégio Harrow, e ver Juliet claramente melhorou o meu dia. Ela é aquele tipo de pessoa que consegue melhorar a sua semana com apenas um sorriso. E enquanto eu recebia um abraço esmagador dela, pude ver Adam ser envolvido por uma rodinha de jogadores e líderes de torcida. Como ele conseguia aguentar tanta bajulação e falso afeto? Mark surgiu no meio daquele estranho grupo e veio em nossa direção. Parecia bastante animado com a volta às aulas, e em poder passar o dia com a Julie. Deixei os dois em seu casulo de amor, e fui até meu armário. Conferi meu horário, peguei os livros que usaria e fui até a sala. No caminho falei com o pessoal do jornal, que diziam estar ansiosos por minhas matérias. De certa forma, era bom estar de volta.
O sinal bateu e a sala começou a encher automaticamente. Alguns me cumprimentavam quando passavam por mim, outros me olhavam de cima a baixo. Nada com o que eu já não estivesse acostumada. Um ligeiro silêncio percorreu o lugar quando Adam deixou Tiffany na porta da sala. Eles não estavam namorando, mas estavam saindo desde... Bem, não sou de guardar datas de acontecimentos bizarros, mas não fazia muito tempo.
Costumávamos ser amigas, porém a popularidade penetrou e contaminou sua mente, corrompendo-a ainda mais. Ela é capitã das líderes de torcida, naturalmente. E obviamente me odeia, principalmente após eu dizer em sua cara que não havia utilidade nenhuma em ficar vestida com uma micro saia ridícula o ano todo, e ser reconhecida e venerada pelo colégio inteiro.
Praticamente dois terços do colégio não olhou mais na minha cara por isso. Por sorte, Julie não levou isso para o lado pessoal. Ela sabia que eu a achava uma graça com o uniforme de líder, ao contrário do resto delas, Julie não parecia vulgar com aquela roupa.
Bem, Adam apenas arqueou a sobrancelha para a reação de todos ali, e beijou a bochecha dela. Exatamente isso: a bochecha. Pude vê-la corar, e esboçar um sorriso bem forçado. Fui só eu que vi isso? Provavelmente. Adam deu meia volta, e foi para sua sala enquanto o resto da turma soltou o ar (juro que pareceu ser sincronizado) e relaxou, após perceber que não haveria outro surto-histérico-Tiffany. Pelo menos eu torcia para isso.
Matemática era nosso primeiro horário. O professor Peterson entrou com aquele sorriso tímido na sala, mas de alguma forma, eu sabia que ele estava gargalhando por dentro. Às vezes eu tinha a impressão de que poderia saber com uma pessoa se sentia, apenas de vê-la ou tocá-la, apesar de muitos conseguirem esconder bem seus sentimentos. Bobeira minha.
Após algumas piadinhas com a turma, e perguntas básicas sobre como foi o feriado, Sr. Peterson resolveu começar a aula. Revisão sobre geometria seria o tema. Fácil. Não foi necessário prestar muita atenção. Na maior parte do tempo, fiquei trocando bilhetes com a Julie. O assunto que predominou foi a eterna dúvida se Tiffany e Adam já estavam namorando. Tudo indicava que sim, por mais que eu nunca tenha visto os dois se beijando, e ela nunca tenha ido lá em casa.
O sinal bateu e todos começaram a sair, ignorando o dever que o professor ainda anunciav. Pude sentir o ar tremular de uma forma muito estranha. Parei de andar e olhei para ele. Estranho. Normalmente, ele começaria a falar mais alto, ameaçando com um teste surpresa. Hoje, ele apenas suspirou, sorriu, e começou a apagar o quadro, preparando-se para a próxima turma.
Ok, esse lance com o ar foi estranho, mas mais estranho foi o tremor que percorreu o meu corpo quando esbarrei em um menino que estava passando no corredor. Ele se abaixou para juntar minhas coisas, que eu derrubei com o susto.
─ Oh, me desculpe. Eu não vi você, sinto muito. – Ele possuía um sorriso perfeito. Meio tímido, mas pude sentir uma ponta de diversão nele. Eu devia estar com uma cara estúpida, porque ele tocou meu braço, meio preocupado. – Você está bem? Parece assustada. – Foi como se eu tivesse levado um choque. Pude perceber que os pelos do meu braço estavam todos eriçados.
─ Eu na... não. Estou... bem. Só... – O que estava acontecendo comigo? Estava agindo como uma idiota. Peguei as minhas coisas que estavam na mão daquele garoto, evitando tocar sua pele, já que de uma forma muito estranha, meu corpo reagiu ao nosso toque. – Er, preciso ir agora. – E com isso, basicamente sai correndo.
Queria escrever bem assim !
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