Quando entrei em casa, estava tudo silencioso. O fato das minhas coisas estarem jogadas sobre a mesa do hall de entrada só comprovou a ideia de que ele ficara irritado. Subi para tomar um banho quente, pois havia sido um longo e cansativo dia. Estranhei o fato da Mist, minha gata, não estar enrolada e dormindo sobre a minha cama, mas depois a procuro. – Pensei.
Durante o banho comecei a passar mal. Minha cabeça ficou mais pesada, e minhas pernas amoleceram. E como em um daqueles filmes antigos, imagens borradas começaram as passar através dos meus olhos semi cerrados. Achei que a tontura nunca fosse passar, e sabe-se lá porque, tive um vislumbre da Mist dormindo na cama do meu irmão.
Demorei alguns segundos para recobrar decentemente os sentidos e assim que me achei capaz de sair do banheiro coloquei uma roupa mais leve, enrolei meu cabelo molhado em uma toalha, calcei minhas pantufas e sai pela casa procurando minha gata. Comecei pela sala e fui até o salão de jogos, já que ela adorava dormir sobre a mesa de bilhar. Enganada. Ela não estava em lugar nenhum. Fui até o jardim, olhei perto da piscina, na churrasqueira, voltei para dentro entrando pela cozinha, passei pelo salão de jantar e nada. Fui até o escritório do meu pai, mesmo sabendo que era pouco provável que ela tivesse conseguido entrar lá.
Após cansar de andar pelo piso inferior, resolvi olhar novamente pelo meu quarto, pois talvez ela estivesse bem escondida no meu closet. Quando cheguei no alto da escada vi aquela linda bola de pelo acinzentado. Adam a estava segurando e com uma cara que passava longe de estar feliz.
─ Vê se deixa isso aqui longe do meu quarto. – E a empurrou para cima de mim.
─ Eu... Como ela chegou lá? – Perguntei, me lembrando da visão e mal estar que tive no banho.
─ Empurrando a porta com o focinho, talvez? Normalmente os gatos fazem isso, caso ainda não saiba.
─ Eu... Eu a vi na sua cama... – A incompreensão tomou conta de mim. Como eu poderia ter visto aquilo, se não cheguei perto de seu quarto?
─ E não a tirou de lá por quê? Sabe que eu odeio essa coisa peluda. – Ele estava furioso, tanto pela volta da escola, como pela Mist. – Mantenha isso ai longe do meu território. – Falando isso, ele simplesmente me deu as costas e sumiu pelo corredor.
Obviamente, meus pais não chegaram a tempo de jantar conosco. Adam ficou vendo algum jogo estúpido que passava na televisão da cozinha enquanto eu apenas mexia na comida, sem fome. Martha, nossa governanta, perguntou-me se estava tudo bem, se eu não estava com fome ou até mesmo se a comida estava ruim. Tudo estava com uma cara ótima, obviamente, porém os acontecimentos do dia haviam revirado meu estômago de cabeça para baixo. Nem aquele cheiro maravilhoso foi o suficiente para me fazer querer comer alguma coisa.
Enrolei uns minutos na mesa, retirei o meu prato, e subi para o quarto, louca para me atirar debaixo das cobertas. Passei por alguns canais na televisão, procurando um filme ou seriado para assistir, mas nada conseguiu prender minha atenção. Nada tirava a imagem daquele menino da minha cabeça, ou o fato ocorrido durante o banho. Esses pensamentos permaneceram em minha mente por um tempo, entretanto minha dor de cabeça era tamanha que logo adormeci.
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Levantei antes de o despertador tocar. Dormi tão mal e acordei tantas vezes durante a noite que foi como se eu não tivesse pregado os olhos cinco minutos. Arrumei-me sem pressa, afinal estava adiantada. Não pretendia comer nada, já que acordei enjoada novamente, mas passei na cozinha para pegar um suco. Levei um susto ao ver Adam ali.
– Estou atrasada? – Disse, apalpando minha bolsa, em busca do celular para conferir as horas.
– Você não é a única que consegue acordar cedo, sabia? – Ele estava de mau humor, evidentemente. Terminou de tomar o seu café e subiu para o quarto, enquanto eu apenas revirei os olhos e fui para a sala ver televisão enquanto esperava ele ficar pronto.
Joguei-me no sofá, brincando entre os canais com o controle remoto. Senti um formigamento na nuca, seguida daquela leve sensação de estar sendo observada. Coloquei-me rapidamente de pé, e tudo o que achei foi um Adam de pijama com uma cara assustada.
– Aff, era você. – Sentei-me novamente, irritada por ele ter me assustado. Como chegara ali tão silenciosamente? Achei tê-lo ouvido batendo a porta do quarto minutos antes.
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A semana não terminou tão tranquila. Eu geralmente achava que estava sendo observada. No quarto, na cozinha, no jardim, na escola. Sempre parecia que alguém estava olhando fixamente para mim. Comecei a achar que tinha chegado a hora de procurar um especialista. Um psicólogo ou iria diretamente a um psiquiatra?
Isso tudo me deixava inquieta e estressada, fora o fato de que eu não conseguia comer nada, porque sempre tinha a impressão de que nada iria parar no meu estômago. As dores de cabeça estavam mais fortes que o normal e os sonhos cada vez mais desconexos.
Na sexta feira não fui para a aula. Durante a madrugada acordei trêmula e enjoada. Nem cinco minutos depois tive que levantar correndo e ir ao banheiro expelir o que voltara do meu jantar mal digerido. De manhã me sentia tão fraca que mal consegui levantar da cama. Todos acharam que era melhor eu ficar em casa descansando e assim eu o fiz. Mandei uma mensagem de texto para a Juliet, onde expliquei o que havia acontecido.
Quando sábado finalmente chegou, eu estava mais do que pronta para passar o dia inteiro na cama. Enganada, como sempre. Julie me ligou logo cedo dizendo que iríamos fazer compras. Não me perguntou se eu queria, nem se podia. Apenas disse que me ligaria quando saísse de casa.
Eu já me sentia bem melhor que no dia anterior, então levantei correndo, tomei um banho rápido e procurei algo decente para vestir. Estava saindo do quarto quando Martha surge dizendo que eu tinha visita. Olhei meu celular e vi que não tinha nenhuma chamada perdida. A não ser que não fosse a Julie me esperando na sala.
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