domingo, 25 de setembro de 2011

Capítulo IX


Minha cabeça ia explodir se algo pior acontecesse. Mandei uma mensagem para o Adam, avisando que demoraria para sair. Eu só precisava de alguns minutos sozinha, e a caminhada para casa era a minha única chance. Enrolei no vestiário o máximo que pude, e percorri os corredores vazios do colégio sem a mínima pressa. Alguém estava martelando meu crânio? Eu realmente devia carregar algumas aspirinas na bolsa.
Martha ficaria louca se eu não aparecesse para lanchar, eu sabia disso, mas todos precisam de um descanso para a mente. Não sei por que raios eu precisava disso exatamente hoje, ou porque este havia sido um dia tão terrível, mas algo estava realmente errado comigo.
Perambulei por aquelas ruas movimentadas, passando por muitas pessoas que tinham rumo, mas não aparentavam ter um objetivo. Elas tinham pressa, corriam contra o tempo, atropelavam tudo em seu caminho, mas para quê? O que somos nós, senão metas ainda não alcançadas? Podíamos viver bem sem ter ao menos realizado um grande sonho?
Quando finalmente dei por mim, estava neste parque. Olhei para trás e, como nunca antes, dei-me conta de que aqueles prédios altos escondiam um pedacinho do paraíso. Os raios de sol refletidos na água, o cheirinho doce das flores, as folhas balançadas por aquela leve brisa. Não era a primeira vez que eu passava por aqui, mas este parecia um novo lugar. Eu sentia como se estivesse me renovando e, ao contrário de minutos atrás, permiti que a angústia armazenada em mim também pudesse desfrutar de toda esta beleza.
As lágrimas foram percorrendo o meu rosto, mas não eram carregadas de tristeza. Alívio, talvez essa seja a definição certa, como se um peso saísse dos meus ombros. Apoiei minhas costas no tronco da árvore mais próxima e lentamente fui me aproximando do chão. Minha visão embaçada continuava presa nos reflexos solares e, não mais do que de repente, aquela imagem tomou conta de mim. Um flash, apenas um segundo. E aquele arrepio novamente. Era um casal? Fechei meus olhos tentando rever aquela cena. Definitivamente era um casal, e me era familiar. O lugar não, era sombrio, e eu não lembrava de jamais ter estado lá.
O sol finalmente se pôs e com isso percebi que estava na hora de voltar para a realidade. Peguei minha mochila e, com dificuldade, levantei do chão me apoiando na árvore. As ruas não estavam mais tão cheias. Àquela hora, as pessoas já deviam ter chego a seu destino e, por mais que eu relutasse a cada passo, era a minha vez de fazer o mesmo.
As luzes do jardim já estavam acesas e previ que teria uma governanta furiosa me esperando no hall de entrada. Não deu outra.
– Aonde você estava, mocinha? Quer que eu tenha um ataque cardíaco antes da hora? – Braços cruzados, pé balançando impacientemente e uma cara nada amigável.
– Estava por ai, agora estou por aqui. – Procurei sorrir, tentando acalmar a fera.
– E da próxima vez que você sair sem me avisar terão partes suas por toda essa cidade. Fique avisada. – E subiu as escadas, ainda furiosa.
Passei na cozinha para pegar algo para comer, e logo subi para o meu quarto, pois um banho quente era a única coisa que faltava para concluir esse dia tumultuado.
Adormeci rapidamente nessa noite, porém meus sonhos não foram mais calmos do que quando eu estava acordada. Começou com aquela ‘visão’ que tive no parque, porém eu não era apenas uma observadora, eu era aquela menina. E agora compreendi o que era aquele lugar: a entrada para uma floresta. Os galhos das árvores balançavam de um jeito sinistro, como se fossem me arrastar para dentro daquela mata. Eu tremi, pensando nessa possibilidade. O menino ao meu lado também estava tenso, olhando ao nosso redor, e me pergunto quem ou o que ele temia.
Quando ele tentou me puxar para o meio daquelas árvores, eu corri. Corri o máximo que pude na direção oposta. Avistei um casarão pouco iluminado e, por mais que não parecesse o melhor lugar para se viver, aparentemente era o local mais seguro por ali. O portão estava semi-aberto, então entrei em disparada. Bati algumas vezes na porta de entrada que com um rangido se abriu. Estava tudo tão escuro, meu coração estava tão acelerado e minha respiração ofegante. Tateei a parede em busca de um interruptor. A baixa iluminação me permitiu reconhecer aquele lugar. E por mais estranho que pareça, eu estava no colégio.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Capítulo VIII


Quer saber algo mais estranho do que fazer algo diferente? Todos notarem que você está fazendo algo diferente. Quando entrei no refeitório acompanhada do Derick, muitos se calaram, mas não foi como se formassem aquele silêncio repentino e constrangedor, porém alguns até mesmo viraram para nos olhar. Entre eles, Adam. Sua mesa inteira silenciou, e os que não olhavam para mim olhavam para ele, na expectativa se sua reação.
Derick não notou o clima estranho que percorreu o refeitório, ou fingiu muito bem. Continuou contando como estava sendo diferente estudar em um colégio normal, pois acabara de ser transferido de um colégio interno só para meninos. Passara um ano lá, como castigo por ter desrespeitado as ordens de seu pai. Que tipo de pai normal fazia isso?
Tentei passar o mais longe possível da mesa do meu irmão, pois o olhar penetrante dele já estava me incomodando o suficiente. Fomos então nos servir e sentar em uma mesa do outro lado do refeitório, perto das janelas. Ficou quente de repente.
–... Mas não foi ruim. Meu pai estava me deixando louco de qualquer forma. – Ele tomou um gole de suco, e fixou o olhar em mim. – Chega de falar de mim. Conte-me mais sobre você.
– Sobre mim? – Eu mal tinha comido duas garfadas, mas meu estômago já estava embrulhado, e sentia que poderia vomitar a qualquer momento. – Sei lá, o que gostaria de saber?
– Tudo, seria pedir muito? – Ele deu uma risada sem graça, e se mexeu no banco, momentaneamente parecendo desconfortável também. – Faz parte do grupo das líderes de torcida daqui?
Não consegui segurar o riso. – Líder, eu? Bem longe disso. Por que a pergunta?
– Quando entramos aqui, elas pareciam esperar que você se sentasse com elas ou algo assim. – Ele deu de ombros, como se fosse uma resposta óbvia.
– Achei que você não tinha notado. De qualquer forma, não sei como poderei te explicar... – Pensei por uns segundos, enquanto empurrava a comida para a beirada do prato. – Digamos que as líderes basicamente me odeiam. – Apoiei os cotovelos na mesa, olhando discretamente na direção do meu irmão, para ver se ele ainda nos encarava. – Todos naquela mesa estavam nos olhando porque meu irmão estava lá, e talvez esperassem que ele se manifestasse ou algo assim, coisa que obviamente ele não faria. Não se daria ao trabalho de se importar já que somos basicamente dois estranhos.
Derick olhou por sobre o ombro para a mesma direção que eu. A patotinha estava toda animada, porém notei que Adam dava umas olhadas discretas para trás. – Acho que já sei quem é seu irmão. – Disse, me olhando com um sorriso. – Vocês têm o mesmo cabelo.
– É o que dizem por ai. Mas talvez seja a única semelhança, tirando os olhos. – Comecei a me levantar, puxando a bandeja.
– Você não comeu nada. Vai ficar fraca se não se...
– Estou bem. Vamos?
Estava louca para sair dali e me afastar de todos aqueles olhares curiosos. Fomos dar uma caminhada pelo gramado do colégio, até que chegamos ao estádio, onde ocorriam a maioria dos jogos dos campeonatos inter escolares. Olhei angustiada para o campo, lembrando do meu irmão. – Não devo explicações a ele, sobre nada que faço da minha vida. – Pensei. Afinal, não era como se eu estivesse dormindo com o cara. Nem éramos amigos.
– Você tem irmãos? – Nem olhei para o Derick, mas era óbvio que a pergunta foi direcionada a ele. Demorou tanto tempo para me responder, que até achei que não tinha me ouvido.
– Tenho um irmão mais velho. Só que não nos falamos.
– Já é casado?
– Não, ele deve ser apenas um ou dois anos mais velho que o seu irmão.
– Hum, e por que ele não mantém contato?
– Digamos que ele nunca aceitou muito o jeito do meu pai. Vivíamos brigando, então ele achou melhor ir embora... – Fez uma pausa quando se abaixou para pegar uma pedra no chão. – Mas continua na cidade, eu acho. Faz algum tempo que não nos esbarramos por ai. – Ele curvou o braço para trás e tacou a pedra. Ela foi tão alta e tocou o chão tão longe que não consegui mais vê-la. Creio que tenha ultrapassado pelo menos uns três metros para fora do campo.
– Wow, essa foi longe. Você joga futebol ou algo do gênero? – Ainda estava com os olhos arregalados, incrédula que ele tivesse tanta força sendo tão magricelo, visto que a pedra não era pequena. Acho que mal caberia na minha mão.
– Jogava beisebol, futebol americano, basquete, fazia natação... Coisas assim, para passar o tempo. – Disse ele, dando de ombros, como se não fosse nada.
– Para passar o tempo? E por que ficou magrinho desse jeito? – Disse eu, sem conter a risada.
– Posso ser magro, mas garanto que sou mais rápido que você. – Ele apressou o passo e começou a andar de costas para poder me olhar.
– E eu disse que era rápida? Faço parte do clube de leitura, do jornal, do grupo de ciências e matemática, tudo aqui na escola. Gosto de participar de manifestações e passeatas contra o abate de animais marinhos, e vários animais em extinção. – Não pude evitar sorrir. – Coisa que certamente irrita meus pais, já que ter uma filha envolvida em manifestações públicas pode gerar alguns problemas para o visual da empresa. Também faço natação e estou tentando aprender francês na internet. Então sim, em 90% do tempo eu estou sentada, sem mover muitas partes do meu corpo.
Ele estava com as sobrancelhas arqueadas, quando terminei de falar. Pelo jeito ele ainda não tinha percebido o fato de eu ser considerada uma das garotas mais estranhas do colégio. Minhas chances de parecer normal para o novato foram reduzidas à zero. Ele olhou para o relógio e para onde tínhamos parado. Atravessamos o campo todo, enquanto conversávamos.
– Vamos ver o quanto você pode correr, Srta. Sedentária. – Esboçou um sorriso no canto dos lábios enquanto preparava a posição de corrida. – Temos que chegar na sala rápido mesmo. – Preparei-me ao seu lado, pensando que seria inútil, ele iria ganhar. – 3...2...1...
Começamos a correr, e obviamente ele estava na minha frente. Por mais rápida que eu fosse, não conseguiria ganhar. Senti uma leve brisa em meu rosto, e um cheiro delicioso me alcançou. Comecei a me sentir mais leve, quase voando, e não sei como consegui apressar ainda mais o passo. Alcancei a linha branca do limite do campo apenas uns segundos antes dele. Minha respiração estava ofegante e pesada, enquanto ele era quase como se não tivesse caminhado um passo. Semicerrei os olhos, balançando a cabeça negativamente.
– Não acredito que você me deixou ganhar. Sei ser uma boa perdedora, ok? – Estava com as mãos apoiadas nos joelhos, a respiração se normalizando.
– Eu não te deixei ganhar. Eu realmente dei o máximo de mim. – Ele me olhava de um jeito estranho, como se eu tivesse feito algo anormal.
– Sério mesmo, diga a verdade. Seria impossível eu ter ganhado se você não tivesse diminuído sua velocidade.
– Acredite no que quiser, mas eu juro que não te deixei ganhar. – Ao longe, o sinal soou, anunciando o início da próxima aula. Por sorte, era Ed. Física, então não teríamos que pegar material nenhum no armário.
Quando sai do vestiário após trocar de uniforme, encontrei Derick encostado na parede me esperando. Algumas líderes passaram fazendo comentários desagradáveis, e pude captar um Ele é muita areia para o seu caminhãozinho. Ele soltou uma risada baixa quando eu apenas revirei os olhos e sussurrei Me desculpe por isso. Rick esticou sua mão para que eu a apertasse e, meio receosa, estiquei a minha e toquei-o preparada para o costumeiro arrepio que percorria meu corpo. Não sei se iria me acostumar com isso tão cedo. 
Foi uma corrida limpa, e você mereceu ganhar. Parabéns, Srta. Walker. – Ele fez menção de que iria se curvar, mas antes que o fizesse, o puxei para a quadra rindo. Quando chegado, o professor Collins anunciava que a Sra. Baker estava com problemas de saúde e não pode comparecer à aula, então dividiríamos o tempo. As equipes foram divididas e posicionadas na quadra. O apito soou e a bola foi para o ar. Segundos depois, a equipe adversária marcava seus dois primeiros pontos.