Quer saber
algo mais estranho do que fazer algo diferente? Todos notarem que você está
fazendo algo diferente. Quando entrei no refeitório acompanhada do Derick,
muitos se calaram, mas não foi como se formassem aquele silêncio repentino e
constrangedor, porém alguns até mesmo viraram para nos olhar. Entre eles, Adam.
Sua mesa inteira silenciou, e os que não olhavam para mim olhavam para ele, na
expectativa se sua reação.
Derick não
notou o clima estranho que percorreu o refeitório, ou fingiu muito bem. Continuou
contando como estava sendo diferente estudar em um colégio normal, pois acabara
de ser transferido de um colégio interno só para meninos. Passara um ano lá,
como castigo por ter desrespeitado as ordens de seu pai. Que tipo de pai normal
fazia isso?
Tentei passar
o mais longe possível da mesa do meu irmão, pois o olhar penetrante dele já
estava me incomodando o suficiente. Fomos então nos servir e sentar em uma mesa
do outro lado do refeitório, perto das janelas. Ficou quente de repente.
–... Mas não
foi ruim. Meu pai estava me deixando louco de qualquer forma. – Ele tomou um
gole de suco, e fixou o olhar em mim. – Chega de falar de mim. Conte-me mais
sobre você.
– Sobre mim? –
Eu mal tinha comido duas garfadas, mas meu estômago já estava embrulhado, e
sentia que poderia vomitar a qualquer momento. – Sei lá, o que gostaria de
saber?
– Tudo, seria
pedir muito? – Ele deu uma risada sem graça, e se mexeu no banco,
momentaneamente parecendo desconfortável também. – Faz parte do grupo das
líderes de torcida daqui?
Não consegui
segurar o riso. – Líder, eu? Bem longe disso. Por que a pergunta?
– Quando entramos
aqui, elas pareciam esperar que você se sentasse com elas ou algo assim. – Ele
deu de ombros, como se fosse uma resposta óbvia.
– Achei que
você não tinha notado. De qualquer forma, não sei como poderei te explicar... –
Pensei por uns segundos, enquanto empurrava a comida para a beirada do prato. –
Digamos que as líderes basicamente me odeiam. – Apoiei os cotovelos na mesa,
olhando discretamente na direção do meu irmão, para ver se ele ainda nos
encarava. – Todos naquela mesa estavam nos olhando porque meu irmão estava lá,
e talvez esperassem que ele se manifestasse ou algo assim, coisa que obviamente
ele não faria. Não se daria ao trabalho de se importar já que somos basicamente
dois estranhos.
Derick olhou
por sobre o ombro para a mesma direção que eu. A patotinha estava toda animada,
porém notei que Adam dava umas olhadas discretas para trás. – Acho que já sei
quem é seu irmão. – Disse, me olhando com um sorriso. – Vocês têm o mesmo
cabelo.
– É o que
dizem por ai. Mas talvez seja a única semelhança, tirando os olhos. – Comecei a
me levantar, puxando a bandeja.
– Você não
comeu nada. Vai ficar fraca se não se...
– Estou bem.
Vamos?
Estava louca
para sair dali e me afastar de todos aqueles olhares curiosos. Fomos dar uma caminhada
pelo gramado do colégio, até que chegamos ao estádio, onde ocorriam a maioria dos
jogos dos campeonatos inter escolares. Olhei angustiada para o campo, lembrando
do meu irmão. – Não devo explicações a ele, sobre nada que faço da minha vida.
– Pensei. Afinal, não era como se eu estivesse dormindo com o cara. Nem éramos
amigos.
– Você tem
irmãos? – Nem olhei para o Derick, mas era óbvio que a pergunta foi direcionada
a ele. Demorou tanto tempo para me responder, que até achei que não tinha me
ouvido.
– Tenho um
irmão mais velho. Só que não nos falamos.
– Já é casado?
– Não, ele
deve ser apenas um ou dois anos mais velho que o seu irmão.
– Hum, e por
que ele não mantém contato?
– Digamos que
ele nunca aceitou muito o jeito do meu pai. Vivíamos brigando, então ele achou
melhor ir embora... – Fez uma pausa quando se abaixou para pegar uma pedra no
chão. – Mas continua na cidade, eu acho. Faz algum tempo que não nos esbarramos
por ai. – Ele curvou o braço para trás e tacou a pedra. Ela foi tão alta e
tocou o chão tão longe que não consegui mais vê-la. Creio que tenha
ultrapassado pelo menos uns três metros para fora do campo.
– Wow, essa
foi longe. Você joga futebol ou algo do gênero? – Ainda estava com os olhos
arregalados, incrédula que ele tivesse tanta força sendo tão magricelo, visto
que a pedra não era pequena. Acho que mal caberia na minha mão.
– Jogava
beisebol, futebol americano, basquete, fazia natação... Coisas assim, para
passar o tempo. – Disse ele, dando de ombros, como se não fosse nada.
– Para passar
o tempo? E por que ficou magrinho desse jeito? – Disse eu, sem conter a risada.
– Posso ser
magro, mas garanto que sou mais rápido que você. – Ele apressou o passo e
começou a andar de costas para poder me olhar.
– E eu disse
que era rápida? Faço parte do clube de leitura, do jornal, do grupo de ciências
e matemática, tudo aqui na escola. Gosto de participar de manifestações e
passeatas contra o abate de animais marinhos, e vários animais em extinção. –
Não pude evitar sorrir. – Coisa que certamente irrita meus pais, já que ter uma
filha envolvida em manifestações públicas pode gerar alguns problemas para o
visual da empresa. Também faço natação e estou tentando aprender francês na
internet. Então sim, em 90% do tempo eu estou sentada, sem mover muitas partes
do meu corpo.
Ele estava com
as sobrancelhas arqueadas, quando terminei de falar. Pelo jeito ele ainda não
tinha percebido o fato de eu ser considerada uma das garotas mais estranhas do
colégio. Minhas chances de parecer normal para o novato foram reduzidas à zero.
Ele olhou para o relógio e para onde tínhamos parado. Atravessamos o campo
todo, enquanto conversávamos.
– Vamos ver o
quanto você pode correr, Srta. Sedentária. – Esboçou um sorriso no canto dos
lábios enquanto preparava a posição de corrida. – Temos que chegar na sala
rápido mesmo. – Preparei-me ao seu lado, pensando que seria inútil, ele iria
ganhar. – 3...2...1...
Começamos a
correr, e obviamente ele estava na minha frente. Por mais rápida que eu fosse,
não conseguiria ganhar. Senti uma leve brisa em meu rosto, e um cheiro
delicioso me alcançou. Comecei a me sentir mais leve, quase voando, e não sei
como consegui apressar ainda mais o passo. Alcancei a linha branca do limite do
campo apenas uns segundos antes dele. Minha respiração estava ofegante e
pesada, enquanto ele era quase como se não tivesse caminhado um passo. Semicerrei
os olhos, balançando a cabeça negativamente.
– Não acredito
que você me deixou ganhar. Sei ser uma boa perdedora, ok? – Estava com as mãos
apoiadas nos joelhos, a respiração se normalizando.
– Eu não te
deixei ganhar. Eu realmente dei o máximo de mim. – Ele me olhava de um jeito
estranho, como se eu tivesse feito algo anormal.
– Sério mesmo,
diga a verdade. Seria impossível eu ter ganhado se você não tivesse diminuído
sua velocidade.
– Acredite no
que quiser, mas eu juro que não te deixei ganhar. – Ao longe, o sinal soou,
anunciando o início da próxima aula. Por sorte, era Ed. Física, então não
teríamos que pegar material nenhum no armário.
Quando sai do
vestiário após trocar de uniforme, encontrei Derick encostado na parede me
esperando. Algumas líderes passaram fazendo comentários desagradáveis, e pude
captar um Ele é muita areia para o seu
caminhãozinho. Ele soltou uma risada baixa quando eu apenas revirei os
olhos e sussurrei Me desculpe por isso.
Rick esticou sua mão para que eu a apertasse e, meio receosa, estiquei a minha e
toquei-o preparada para o costumeiro arrepio que percorria meu corpo. Não sei
se iria me acostumar com isso tão cedo.
–
Foi uma corrida limpa, e você mereceu ganhar. Parabéns, Srta. Walker. – Ele fez
menção de que iria se curvar, mas antes que o fizesse, o puxei para a quadra
rindo. Quando chegado, o professor Collins anunciava que a Sra. Baker estava com problemas de saúde e não pode comparecer
à aula, então dividiríamos o tempo. As equipes foram divididas e posicionadas
na quadra. O apito soou e a bola foi para o ar. Segundos depois, a equipe
adversária marcava seus dois primeiros pontos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário