sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Capítulo VIII


Quer saber algo mais estranho do que fazer algo diferente? Todos notarem que você está fazendo algo diferente. Quando entrei no refeitório acompanhada do Derick, muitos se calaram, mas não foi como se formassem aquele silêncio repentino e constrangedor, porém alguns até mesmo viraram para nos olhar. Entre eles, Adam. Sua mesa inteira silenciou, e os que não olhavam para mim olhavam para ele, na expectativa se sua reação.
Derick não notou o clima estranho que percorreu o refeitório, ou fingiu muito bem. Continuou contando como estava sendo diferente estudar em um colégio normal, pois acabara de ser transferido de um colégio interno só para meninos. Passara um ano lá, como castigo por ter desrespeitado as ordens de seu pai. Que tipo de pai normal fazia isso?
Tentei passar o mais longe possível da mesa do meu irmão, pois o olhar penetrante dele já estava me incomodando o suficiente. Fomos então nos servir e sentar em uma mesa do outro lado do refeitório, perto das janelas. Ficou quente de repente.
–... Mas não foi ruim. Meu pai estava me deixando louco de qualquer forma. – Ele tomou um gole de suco, e fixou o olhar em mim. – Chega de falar de mim. Conte-me mais sobre você.
– Sobre mim? – Eu mal tinha comido duas garfadas, mas meu estômago já estava embrulhado, e sentia que poderia vomitar a qualquer momento. – Sei lá, o que gostaria de saber?
– Tudo, seria pedir muito? – Ele deu uma risada sem graça, e se mexeu no banco, momentaneamente parecendo desconfortável também. – Faz parte do grupo das líderes de torcida daqui?
Não consegui segurar o riso. – Líder, eu? Bem longe disso. Por que a pergunta?
– Quando entramos aqui, elas pareciam esperar que você se sentasse com elas ou algo assim. – Ele deu de ombros, como se fosse uma resposta óbvia.
– Achei que você não tinha notado. De qualquer forma, não sei como poderei te explicar... – Pensei por uns segundos, enquanto empurrava a comida para a beirada do prato. – Digamos que as líderes basicamente me odeiam. – Apoiei os cotovelos na mesa, olhando discretamente na direção do meu irmão, para ver se ele ainda nos encarava. – Todos naquela mesa estavam nos olhando porque meu irmão estava lá, e talvez esperassem que ele se manifestasse ou algo assim, coisa que obviamente ele não faria. Não se daria ao trabalho de se importar já que somos basicamente dois estranhos.
Derick olhou por sobre o ombro para a mesma direção que eu. A patotinha estava toda animada, porém notei que Adam dava umas olhadas discretas para trás. – Acho que já sei quem é seu irmão. – Disse, me olhando com um sorriso. – Vocês têm o mesmo cabelo.
– É o que dizem por ai. Mas talvez seja a única semelhança, tirando os olhos. – Comecei a me levantar, puxando a bandeja.
– Você não comeu nada. Vai ficar fraca se não se...
– Estou bem. Vamos?
Estava louca para sair dali e me afastar de todos aqueles olhares curiosos. Fomos dar uma caminhada pelo gramado do colégio, até que chegamos ao estádio, onde ocorriam a maioria dos jogos dos campeonatos inter escolares. Olhei angustiada para o campo, lembrando do meu irmão. – Não devo explicações a ele, sobre nada que faço da minha vida. – Pensei. Afinal, não era como se eu estivesse dormindo com o cara. Nem éramos amigos.
– Você tem irmãos? – Nem olhei para o Derick, mas era óbvio que a pergunta foi direcionada a ele. Demorou tanto tempo para me responder, que até achei que não tinha me ouvido.
– Tenho um irmão mais velho. Só que não nos falamos.
– Já é casado?
– Não, ele deve ser apenas um ou dois anos mais velho que o seu irmão.
– Hum, e por que ele não mantém contato?
– Digamos que ele nunca aceitou muito o jeito do meu pai. Vivíamos brigando, então ele achou melhor ir embora... – Fez uma pausa quando se abaixou para pegar uma pedra no chão. – Mas continua na cidade, eu acho. Faz algum tempo que não nos esbarramos por ai. – Ele curvou o braço para trás e tacou a pedra. Ela foi tão alta e tocou o chão tão longe que não consegui mais vê-la. Creio que tenha ultrapassado pelo menos uns três metros para fora do campo.
– Wow, essa foi longe. Você joga futebol ou algo do gênero? – Ainda estava com os olhos arregalados, incrédula que ele tivesse tanta força sendo tão magricelo, visto que a pedra não era pequena. Acho que mal caberia na minha mão.
– Jogava beisebol, futebol americano, basquete, fazia natação... Coisas assim, para passar o tempo. – Disse ele, dando de ombros, como se não fosse nada.
– Para passar o tempo? E por que ficou magrinho desse jeito? – Disse eu, sem conter a risada.
– Posso ser magro, mas garanto que sou mais rápido que você. – Ele apressou o passo e começou a andar de costas para poder me olhar.
– E eu disse que era rápida? Faço parte do clube de leitura, do jornal, do grupo de ciências e matemática, tudo aqui na escola. Gosto de participar de manifestações e passeatas contra o abate de animais marinhos, e vários animais em extinção. – Não pude evitar sorrir. – Coisa que certamente irrita meus pais, já que ter uma filha envolvida em manifestações públicas pode gerar alguns problemas para o visual da empresa. Também faço natação e estou tentando aprender francês na internet. Então sim, em 90% do tempo eu estou sentada, sem mover muitas partes do meu corpo.
Ele estava com as sobrancelhas arqueadas, quando terminei de falar. Pelo jeito ele ainda não tinha percebido o fato de eu ser considerada uma das garotas mais estranhas do colégio. Minhas chances de parecer normal para o novato foram reduzidas à zero. Ele olhou para o relógio e para onde tínhamos parado. Atravessamos o campo todo, enquanto conversávamos.
– Vamos ver o quanto você pode correr, Srta. Sedentária. – Esboçou um sorriso no canto dos lábios enquanto preparava a posição de corrida. – Temos que chegar na sala rápido mesmo. – Preparei-me ao seu lado, pensando que seria inútil, ele iria ganhar. – 3...2...1...
Começamos a correr, e obviamente ele estava na minha frente. Por mais rápida que eu fosse, não conseguiria ganhar. Senti uma leve brisa em meu rosto, e um cheiro delicioso me alcançou. Comecei a me sentir mais leve, quase voando, e não sei como consegui apressar ainda mais o passo. Alcancei a linha branca do limite do campo apenas uns segundos antes dele. Minha respiração estava ofegante e pesada, enquanto ele era quase como se não tivesse caminhado um passo. Semicerrei os olhos, balançando a cabeça negativamente.
– Não acredito que você me deixou ganhar. Sei ser uma boa perdedora, ok? – Estava com as mãos apoiadas nos joelhos, a respiração se normalizando.
– Eu não te deixei ganhar. Eu realmente dei o máximo de mim. – Ele me olhava de um jeito estranho, como se eu tivesse feito algo anormal.
– Sério mesmo, diga a verdade. Seria impossível eu ter ganhado se você não tivesse diminuído sua velocidade.
– Acredite no que quiser, mas eu juro que não te deixei ganhar. – Ao longe, o sinal soou, anunciando o início da próxima aula. Por sorte, era Ed. Física, então não teríamos que pegar material nenhum no armário.
Quando sai do vestiário após trocar de uniforme, encontrei Derick encostado na parede me esperando. Algumas líderes passaram fazendo comentários desagradáveis, e pude captar um Ele é muita areia para o seu caminhãozinho. Ele soltou uma risada baixa quando eu apenas revirei os olhos e sussurrei Me desculpe por isso. Rick esticou sua mão para que eu a apertasse e, meio receosa, estiquei a minha e toquei-o preparada para o costumeiro arrepio que percorria meu corpo. Não sei se iria me acostumar com isso tão cedo. 
Foi uma corrida limpa, e você mereceu ganhar. Parabéns, Srta. Walker. – Ele fez menção de que iria se curvar, mas antes que o fizesse, o puxei para a quadra rindo. Quando chegado, o professor Collins anunciava que a Sra. Baker estava com problemas de saúde e não pode comparecer à aula, então dividiríamos o tempo. As equipes foram divididas e posicionadas na quadra. O apito soou e a bola foi para o ar. Segundos depois, a equipe adversária marcava seus dois primeiros pontos. 

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