domingo, 8 de janeiro de 2012

Capítulo X


Nem mesmo a péssima iluminação interferia na percepção do local. As paredes sufocantes da Harrow High School eram inconfundíveis. Infelizmente, a cada passo dado elas pareciam mais próximas, o teto mais baixo e os corredores mais escuros.
– Como vim parar aqui? – Isso pairava na minha cabeça, ainda sem uma resposta definida. E para piorar, eu estava com a terrível impressão de que alguém me observava. Assim, inconscientemente, comecei a andar cada vez mais rápido, procurando a saída mais próxima. Eu já estava ofegante, agitada e tudo o que queria era dar o fora dali, torcendo para dessa vez parar em um lugar melhor, menos assustador.
Os corredores estavam vazios, mas eu ainda olhava desesperada para os lados, como se alguém estivesse me seguindo. Ouvi uns passos ao longe, e comecei a correr. Não importava se era minha mente brilhante me pregando mais uma peça ou o meu sonho se tornando ainda pior, só sei que minhas pernas agiram mais rápido do que eu esperava. Passei rapidamente pelo laboratório de química, que por sinal estava uma bagunça. Haviam banquetas derrubadas, tubos de ensaio quebrados e papéis espalhados por todos os lados. Segui em disparada pelo corredor, dobrando em algumas esquinas, chegando direto ao ginásio. Empurrei com força as portas, e gritei com a cena que vi.
Haviam corpos teoricamente sentados nas arquibancadas. Como eu sabia que eram corpos, e não mais pessoas? Todos estavam sujos de sangue, e com a cabeça bruscamente inclinada. Eu reconhecia todos os oito. Na ponta da esquerda começava com Kate, Tracy e Chloe, sendo todas estas líderes de torcidas que claramente não me agradavam. Na ponta da direita estavam Bryan, Charles e James, jogadores de futebol do time da escola. E bem ao centro estavam Adam e Tiffany, de mãos dadas e olhos bem abertos em minha direção, também mortos.
Passos ecoaram pelas paredes do ginásio, fazendo-me levar um susto ainda maior. Girei meu corpo para poder ver quem me acompanhava naquele show de horrores, e antes mesmo de ver seu rosto, eu sabia quem era. O cabelo em minha nuca se eriçou, e senti o ar abandonar os meus pulmões quando avistei aquele sorriso torto, e vi que suas mãos estavam com luvas avermelhadas pelo sangue ainda ‘fresco’.
Até em sonho possuíamos aquela estranha ligação? Mas “por quê?” deveria ser a pergunta certa, como se pessoalmente não fosse estranho o suficiente. Ele começou a se aproximar de mim, porém eu permanecia no mesmo lugar, estática. Estava entre os corpos e o assassino. Não havia porque correr, ele me alcançaria e me mataria também.
─ Por que está com medo, querida? Sabe que eu nunca faria mal a você. – Seu tom de voz estava calmo, quase como se estivéssemos falando de uma banalidade qualquer.
─ Eu sei? Como eu poderia se mal nos conhecemos? – A repulsa em minha voz o fez parar por alguns segundos, mas logo aquele sorriso zombeteiro estava lá mais uma vez.
─ Você está certa, mas de qualquer forma, não é preciso ter medo de mim. – Derick esticava a mão para alcançar a minha, como se ao menos houvesse uma remota chance de eu segurá-la.
─ Medo? Quem está com medo? Você só matou meus amigos e meu... – Minha voz falhou quando fui mencionar Adam. Um desconfortável nó travou minha garganta e eu dificilmente conseguiria pronunciar o que quer que passasse pela minha mente.
─ Seus amigos? Eu fiz isso para te proteger. Mesmo porque, eles infernizam sua vida desde sempre. E não se preocupe com Adam, vocês são basicamente estranhos.
─ Eles não me fizeram nada, nunca. Você... Não tinha esse direito. – Eu sentia as lágrimas queimando meu rosto. Eram insistentes e tornavam minha visão turva. – Fique longe de mim! Eu te odeio, saia daqui! – Consegui gritar assim que ele tocou meu ombro.
O seu olhar era triste quando recuou uma passada. Talvez as minhas palavras tenham mesmo surtido algum efeito. Deixei aquele peso tomar conta de mim e, sem coragem de olhar para trás e encarar os corpos, caí de joelhos, a dor tomando o comando do meu corpo. O ginásio foi ficando escuro ao passo que meu choro tornava-se desesperado, com meus soluços ecoando por aquele imenso vazio. Eu não conseguia enxergar nada ao meu redor.
─ As coisas serão diferentes dessa vez, você verá. – Derick basicamente sussurrou em meu ouvido e desapareceu. Eu não pude ver, mas sabia que ele não estava perto de mim porque mais nenhum arrepio percorria meu corpo. Deixei então que a escuridão me abraçasse. Pedi, com todas as minhas forças para que aquilo acabasse, e eu voltasse para o conforto e segurança da minha cama.
Quando finalmente recobrei os sentidos após esse terrível pesadelo, focalizei, com dificuldade um Adam com uma cara super assustada. Demorei alguns minutos para conseguir me recompor, pois eu estava mesmo chorando.
─ O... Que... Vocês estão... Fazendo aqui? – Foi o máximo que consegui dizer, assim que percebi que mamãe também estava no quarto conosco.
─ Estávamos passando aqui em frente quando ouvimos os seus gritos, querida. – Disse-me mamãe, alisando minha mão, tentando me acalmar.
─ É, você parecia bem desesperada com seja lá o que estava sonhando. – Adam disse assim que retirou uma mecha do meu cabelo que estava grudada no rosto, devido ao suor. Sua voz me fez lembrar de tudo o que tinha visto no sonho e, automaticamente, joguei meus braços por seu pescoço, abraçando-o. Eu não fazia isso há muito, muito tempo. Foi estranho e bom ao mesmo tempo. Fez-me ver que tudo aquilo não passara apenas de um sonho ruim. Ele ainda estava ali, vivo e comigo.
Ele também pareceu estranhar minha atitude, mas após se recuperar do susto, começou a alisar meu cabelo e sussurrar palavras tranquilizadoras, pedindo para eu parar de chorar.
─ Ahn, eu tenho que fazer uma ligação importante, só que mais tarde volto para ver como você está, ok? – Ela evitou olhar para mim, por mais que estivesse claro que estivesse falando comigo.
Adam estava chocado com o meu estado e eu também estaria. Consegui levantar e ir ao banheiro apenas para me assustar. Meu cabelo estava todo bagunçado, molhado de suor e meus olhos inchados e vermelhos de tanto chorar. Porém, quando olhei para minhas mãos e não pude deixar de gritar: estavam ensanguentadas.