Nem mesmo a
péssima iluminação interferia na percepção do local. As paredes sufocantes da
Harrow High School eram inconfundíveis. Infelizmente, a cada passo dado elas
pareciam mais próximas, o teto mais baixo e os corredores mais escuros.
– Como vim parar aqui? – Isso pairava na minha
cabeça, ainda sem uma resposta definida. E para piorar, eu estava com a terrível
impressão de que alguém me observava. Assim, inconscientemente, comecei a andar
cada vez mais rápido, procurando a saída mais próxima. Eu já estava ofegante,
agitada e tudo o que queria era dar o fora dali, torcendo para dessa vez parar em um lugar melhor, menos
assustador.
Os corredores
estavam vazios, mas eu ainda olhava desesperada para os lados, como se alguém
estivesse me seguindo. Ouvi uns passos ao longe, e comecei a correr. Não
importava se era minha mente brilhante me pregando mais uma peça ou o meu sonho
se tornando ainda pior, só sei que minhas pernas agiram mais rápido do que eu
esperava. Passei rapidamente pelo laboratório de química, que por sinal estava
uma bagunça. Haviam banquetas derrubadas, tubos de ensaio quebrados e papéis
espalhados por todos os lados. Segui em disparada pelo corredor, dobrando em
algumas esquinas, chegando direto ao ginásio. Empurrei com força as portas, e
gritei com a cena que vi.
Haviam corpos
teoricamente sentados nas arquibancadas. Como eu sabia que eram corpos, e não
mais pessoas? Todos estavam sujos de sangue, e com a cabeça bruscamente
inclinada. Eu reconhecia todos os oito. Na ponta da esquerda começava com Kate,
Tracy e Chloe, sendo todas estas líderes de torcidas que claramente não me
agradavam. Na ponta da direita estavam Bryan, Charles e James, jogadores de
futebol do time da escola. E bem ao centro estavam Adam e Tiffany, de mãos
dadas e olhos bem abertos em minha direção, também mortos.
Passos ecoaram
pelas paredes do ginásio, fazendo-me levar um susto ainda maior. Girei meu
corpo para poder ver quem me acompanhava naquele show de horrores, e antes
mesmo de ver seu rosto, eu sabia quem era. O cabelo em minha nuca se eriçou, e
senti o ar abandonar os meus pulmões quando avistei aquele sorriso torto, e vi
que suas mãos estavam com luvas avermelhadas pelo sangue ainda ‘fresco’.
Até em sonho
possuíamos aquela estranha ligação? Mas “por quê?” deveria ser a pergunta
certa, como se pessoalmente não fosse estranho o suficiente. Ele começou a se
aproximar de mim, porém eu permanecia no mesmo lugar, estática. Estava entre os
corpos e o assassino. Não havia porque correr, ele me alcançaria e me mataria
também.
─ Por que está
com medo, querida? Sabe que eu nunca faria mal a você. – Seu tom de voz estava
calmo, quase como se estivéssemos falando de uma banalidade qualquer.
─ Eu sei? Como
eu poderia se mal nos conhecemos? – A repulsa em minha voz o fez parar por alguns
segundos, mas logo aquele sorriso zombeteiro estava lá mais uma vez.
─ Você está
certa, mas de qualquer forma, não é preciso ter medo de mim. – Derick esticava
a mão para alcançar a minha, como se ao menos houvesse uma remota chance de eu
segurá-la.
─ Medo? Quem
está com medo? Você só matou meus amigos e meu... – Minha voz falhou quando fui
mencionar Adam. Um desconfortável nó travou minha garganta e eu dificilmente
conseguiria pronunciar o que quer que passasse pela minha mente.
─ Seus amigos?
Eu fiz isso para te proteger. Mesmo porque, eles infernizam sua vida desde
sempre. E não se preocupe com Adam, vocês são basicamente estranhos.
─ Eles não me
fizeram nada, nunca. Você... Não tinha esse direito. – Eu sentia as lágrimas
queimando meu rosto. Eram insistentes e tornavam minha visão turva. – Fique
longe de mim! Eu te odeio, saia daqui! – Consegui gritar assim que ele tocou
meu ombro.
O seu olhar
era triste quando recuou uma passada. Talvez as minhas palavras tenham mesmo
surtido algum efeito. Deixei aquele peso tomar conta de mim e, sem coragem de
olhar para trás e encarar os corpos, caí de joelhos, a dor tomando o comando do
meu corpo. O ginásio foi ficando escuro ao passo que meu choro tornava-se
desesperado, com meus soluços ecoando por aquele imenso vazio. Eu não conseguia
enxergar nada ao meu redor.
─ As coisas
serão diferentes dessa vez, você verá. – Derick basicamente sussurrou em meu
ouvido e desapareceu. Eu não pude ver, mas sabia que ele não estava perto de
mim porque mais nenhum arrepio percorria meu corpo. Deixei então que a
escuridão me abraçasse. Pedi, com todas as minhas forças para que aquilo
acabasse, e eu voltasse para o conforto e segurança da minha cama.
Quando finalmente
recobrei os sentidos após esse terrível pesadelo, focalizei, com dificuldade um
Adam com uma cara super assustada. Demorei alguns minutos para conseguir me
recompor, pois eu estava mesmo chorando.
─ O... Que...
Vocês estão... Fazendo aqui? – Foi o máximo que consegui dizer, assim que
percebi que mamãe também estava no quarto conosco.
─ Estávamos
passando aqui em frente quando ouvimos os seus gritos, querida. – Disse-me
mamãe, alisando minha mão, tentando me acalmar.
─ É, você
parecia bem desesperada com seja lá o que estava sonhando. – Adam disse assim
que retirou uma mecha do meu cabelo que estava grudada no rosto, devido ao
suor. Sua voz me fez lembrar de tudo o que tinha visto no sonho e, automaticamente,
joguei meus braços por seu pescoço, abraçando-o. Eu não fazia isso há muito,
muito tempo. Foi estranho e bom ao mesmo tempo. Fez-me ver que tudo aquilo não
passara apenas de um sonho ruim. Ele ainda estava ali, vivo e comigo.
Ele também
pareceu estranhar minha atitude, mas após se recuperar do susto, começou a
alisar meu cabelo e sussurrar palavras tranquilizadoras, pedindo para eu parar
de chorar.
─ Ahn, eu
tenho que fazer uma ligação importante, só que mais tarde volto para ver como
você está, ok? – Ela evitou olhar para mim, por mais que estivesse claro que
estivesse falando comigo.
Adam estava
chocado com o meu estado e eu também estaria. Consegui levantar e ir ao
banheiro apenas para me assustar. Meu cabelo estava todo bagunçado, molhado de
suor e meus olhos inchados e vermelhos de tanto chorar. Porém, quando olhei
para minhas mãos e não pude deixar de gritar: estavam ensanguentadas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário